13 Dez 2018 | domtotal.com

Liberdade X libertinagem

Em poucos minutos, várias pessoas se escarrapacharam no gramado verdejante, enquanto outras jogavam lixo para todos os lados.

Proteger o patrimônio público também é função da polícia, mas isso nem sempre acontece.
Proteger o patrimônio público também é função da polícia, mas isso nem sempre acontece. (Adão de Souza/PBH)

Por Jorge Fernando dos Santos

No último fim de semana, a Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, foi oficialmente devolvida à população após alguns meses de reforma. No sábado, para deleite de turistas e moradores locais, a Cemig inaugurou a tradicional iluminação natalina.

O que se viu depois disso foram cenas deploráveis de total falta de educação e civilidade por um bom número de frequentadores do lugar. Em poucos minutos, várias pessoas se escarrapacharam no gramado verdejante, enquanto outras espalhavam lixo para todos os lados.


Teve gente que até roubou flores e mudas de plantas, faltando por pouco comer a grama. Dias depois, o bebedouro de mármore teve uma de suas pedras descolada, enquanto moradores de rua voltavam a fazer o coreto de hotel. Alguns, inclusive, retomaram o hábito de tomar banho na fonte principal – que finalmente voltou a ser luminosa.

Diante de tudo isso, pode-se concluir que boa parte da população é desmerecedora do presente de Natal, que foi a reforma da praça mais charmosa da cidade. Algumas dessas pessoas certamente reclamam da classe política, ignorando que os políticos apenas refletem os maus hábitos do povo que os elege.

Ideias polêmicas

A exemplo do Parque Municipal, da Praça da Estação e do Palácio da Liberdade, a PBH deveria cercar os jardins ou a própria praça, visando protegê-los do vandalismo noturno. Durante o dia, há que ter câmeras de segurança e fiscais de plantão. Outra boa medida seria proibir manifestações públicas no local, pois a cidade tem lugares mais adequados para esses eventos.

São ideias polêmicas e muita gente vai alegar que a praça é do povo como o céu é do urubu. Mas o fato é que, em nome da preservação e da segurança, muitos parques e praças pelo mundo afora são protegidos por grades de ferro. É o caso, por exemplo, da Praça do Sol, no bairro carioca de Ipanema.

Proteger o patrimônio público também é função da polícia, mas isso nem sempre acontece. A Guarda Municipal, por exemplo, foi criada com essa finalidade, mas uma parte do seu efetivo está a serviço da BHTrans, fiscalizando o trânsito. Contudo, só no primeiro semestre deste ano ela registrou 654 crimes contra o patrimônio da cidade.

Quanto aos moradores de rua, há quem diga que alguns têm até liminar que lhes permite ocupar locais públicos. Alguns acampam em frente à Biblioteca Pública ou mesmo nos jardins da praça. A PBH mantém abrigos para acolher essas pessoas, mas a maioria prefere as ruas, onde é fácil beber e se drogar.

No entanto, convenhamos, como cobrar educação de pessoas em situação de rua se quem tem teto e estudo costuma depredar o patrimônio e jogar lixo nas vias públicas? Pelo visto, a reforma da Praça da Liberdade foi perda de tempo e dinheiro, pois muitos se mostram desinteressados em preservá-la. Gente que ainda confunde liberdade com libertinagem.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Ed. Atual), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio da APCA em 2015; e A Turma da Savassi (Quixote).
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