27 Dez 2018 | domtotal.com

Natal Selvagem

Faça qualquer coisa, mas não saia às compras nas vésperas do Natal nunca mais.

Na compras natalinas, a luta não é somente pelo espaço, mas pela sobrevivência.
Na compras natalinas, a luta não é somente pelo espaço, mas pela sobrevivência. (Fernando Frazão/ Agência Brasil)

Por Gilmar Pereira

O amigo-oculto (ou amigo-secreto, se você preferir) foi feito poucos dias antes da ceia da família. Ir ao shopping na semana do Natal, à noite, foi inevitável. Nessas situações a gente se sente um "trouxa". O que é que estou fazendo com essa gente nesse lugar?!

Não se sinta ofendido(a), mas o(a) senhor(a) que me lê também é, caso tenha se submetido a essa inglória. Compre na internet e peça para tirar na loja; passe pelo comércio perto do trabalho dando olhadinhas rápidas para, quando achar algo legal, já levar; compre de algum estabelecimento perto de casa; force a antecipação do sorteio do amigo-oculto; faça amizade com vendedores e tenha seus telefones de contato comercial para que separem algo para você, mas não saia às compras nas vésperas. Qualquer coisa, mas não saia às compras nas vésperas.

Digo isso porque nos últimos dias que antecedem o Natal ninguém sai às compras, sai à caça. Trata-se de uma selvageria mercantil e as cenas poderiam ser filmadas pelo Animal Planet ou National Geographic. E tudo já começa no trânsito, quando algumas belezuras seguem na pista vazia, que é de conversão à direita, para furar a fila de carros que aguarda (im)pacientemente para seguir na pista da esquerda, que leva ao shopping. Sempre haverá um misericordioso que dará passagem para gente que se faz de desentendido. São nessas horas que um engole o outro, porque o trânsito não flui e você fica igual um palhaço esperando a esperteza das serpentes sinuosas do asfalto. Se você aguarda bonitinho(a) no lugar correto, por que eles não podem?

O segundo suplício é estacionar. Não por estar tudo cheio, mas porque tem muita gente sem senso de direção e noção de espaço que ocupa duas vagas, trava o caminho pela lentidão ou não presta atenção na sinalização e nos funcionários dizendo para subir logo para o piso superior do estacionamento, já que não há vaga embaixo. Há ainda o povo que passeia no estacionamento impedindo que os carros passem. Estes andam lentamente, em bando, e nunca nas áreas a eles reservada.

Esses são os piores dessa savana de compras, a manada lenta, com seu andar paquidérmico. Não basta a eles andarem em bando. Poderia ir uma pessoa ou duas para fazer as compras? Sim. Mas têm que levar criança para ver a decoração brega e a avó para comer na praça de alimentação - que passeio! Não bastando andar em bando, têm que se colocar um do lado do outro impedindo que alguém os ultrapasse. Peça licença e virá resmungo e reclamação de alguém que crê que todos devem seguir seu ritmo. Andam lento e não se movem.

Odeio igualmente os casais em fase de acasalamento que não podem soltar as mãos por risco de outro alguém copular com seu parceiro. O território está sempre marcado. Se vem alguém no sentido oposto, ou mesmo num corredor estreito, poderiam se colocar um na frente do outro e abrir passagem? Poderiam, mas optam por deixar tudo mais difícil. Soltar as mãos parece difícil demais e vão teimar em seguir atados.

O pior de tudo é que você vai encontrar o mesmo casal na fila da praça da alimentação, decidindo só na hora que chegam ao balcão o que vão comer, impedindo que o de trás, que já sabe o que quer, faça seu pedido. Eles atrasam tudo e você vai encontrá-los de novo numa arara de loja de departamento dificultando que você pegue o item que precisa e será esse mesmo casal aquele que demora a arrancar com o carro quando o sinal abrir. Acho que eles perseguem os que têm pressa. Comece a notar! Quando você se irritar com um casal num shopping, vai encontrá-lo em quase todas as lojas que for (e eles sempre estarão na sua frente).

As coisas nessa época não são pensadas. Já tem gente em excesso, os espaços são diminuídos pela decoração e ainda inventam coisas como um shopping de BH que resolver colocar um trem natalino passeando por seus corredores, cheio de criança com seus pais. A atração era um transtorno para quem queria andar e gerava a pergunta que não queria calar: quem tem paciência e tempo para entrar com o filho num carrinho barulhento, de música insuportável, e ficar dando voltas por um corredor de shopping?

Nas compras natalinas, a luta não é somente pelo espaço, mas pela sobrevivência, onde resistem somente os mais fortes. Tudo está revirado, o que você procura não tem e se encontra é do tamanho ou cor que não servem. Por isso, todo mundo revira bancas, araras e prateleiras como um animal faminto buscando por comida. E se duas pessoas quiserem a mesma coisa, parecerão dois cachorros brigando pelo osso.

Não há nada mais distante do espírito natalino que o espírito natalino forjado pelo comércio. Quer dizer, não há espírito algum, mas um vulto que lembra o Natal. No apelo de dar presentes reside um outro apelo, mais próprio dessa época, o de reconhecer o outro como dom e a ele se fazer presente.

Ao contrário das demonstrações de selvageria que se vê nessa época (e em outras), o Natal deveria ser época de humanização. Afinal, celebra-se a Encarnação do Verbo de Deus. Daquele que se fez humano para que o humano se fizesse divino. E é isso que o Natal significa, a possibilidade de sermos conforme aquilo para o qual fomos criados, imagem e semelhança de Deus, de alcançar a melhor versão de nós mesmos. Natal é para humanizar.

Colônia de férias

Muitos pais levam seus filhos aos shoppings nessa época do ano pela comodidade. Contudo, há outras opções para os pequenos durante o período de férias escolares e menos estressantes que os espaços que incentivam o consumismo. Vários espaços culturais da capital mineira oferecem programação ao público infatil.

Gilmar Pereira
Gilmar Pereira é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP; bacharel e licenciado em Filosofia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CESJF); bacharel em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Também possui formação em Fotografia pelo SESI-MG/ Studio 3 Escola de Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante há 18 anos, com grande experiência no campo religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito e ministra a disciplina ''A comunicação como evento teológico'' na especialização ''Desafios para a Igreja na Era Digital''.
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