07 Jan 2019 | domtotal.com

Chic simplesmente

Ostentar não é chic. Chic é ser simples.

O Importado, em cartaz no CCBB de 18 a 28 de janeiro.
O Importado, em cartaz no CCBB de 18 a 28 de janeiro. (Fernando Badharó/ Divulgação)

Por Gilmar Pereira

Não sou chic, sou simples – eis a pegada estética do momento. Dê uma olhada em alguns bares e restaurantes, que abandonaram o cardápio tradicional e optaram por uma prancheta despojada. Mais. Tudo estudadamente despojado. No lugar de copos caros, o modelo “americano” ou “lagoinha” (como se diz em BH); opções do dia escritas com giz numa parede preta; paletes e futons servindo de sofá; samambaia para decorar. A mistura de casa de vó com galpão abandonado é tendência.

Para ficar mais cool, garçons – com tatuagens geométricas, de ícones dos anos 80 ou de espiritualidade Zen –, vestidos em seus aventais pretos, atendem gentilmente e ainda conversam contigo sobre um livro de Chimamanda ou sobre os muralistas mexicanos. Estará tocando Nina Simone ou Asaf Avidan. Na mesa da frente uma moça com vestido de cortes retos, sem acinturamento, como os trajados antigamente pelas avós, está com o cabelo preso num palito sem pentear. Tudo despojado, já disse. Sua amiga esquiva do elogio ao seu outfit: uma calça de marca, mas que foi comprada “super barata” numa promoção em NYC, o sapato numa feirinha de um artesão que só trabalha com materiais reciclados e sustentáveis e uma camisa adquirida num brechó. Nada mais simplesmente cool que um brechó.

Ostentar não é chic. Chic é ser simples. “O povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual”, dizia Joãosinho Trinta. E sim, isso é verdade. Vá à casa de um professor de universidade pública e achará coisas rústicas ou austeras. Alguns talvez nem tenham televisão, porque não lhes faz falta. Na do pobre terá uma de última geração porque a este foi dado poder aquisitivo em anos recentes, mas não uma crítica ao consumo (aliás, essa é uma autocrítica que parte da Esquerda faz). O funk é ostentação; a bossa nova é clean.

Aqui mora a ambiguidade da simplicidade. Pode ser uma opção real pelo simples ou pode ser uma simples diferenciação do pobre, uma nova forma de elitismo. E isso, como quase tudo na vida, não é “ou isso ou aquilo”. Pode ser as duas coisas. Particularmente, gosto desses ambientes que mesclam as estéticas retrô e industrial, que tocam música com menor apelo comercial e que não recorrem a marca somente pela marca. Acontece que isso também é altamente vendável e corre o risco de promover gentrificação.

Nos processos de “revitalização” dos “baixos-centros” ou “centros velhos” das cidades, são instalados novos ambientes despojados que atraem a galara alternativa, descolada, universitária, classe média e média alta e que não gosta de ostentação. Todo mundo é politizado e meio parecido com Gregório Duvivier. Só que esses mesmos estabelecimentos não são baratos, aumentam os custos da região, fazendo com que os pobres que lá viviam tenham que sair. Note que muitos pobres gostam de frequentar os locais costumeiros das classes média e média alta e que parte delas gosta de ocupar os espaços antigamente menos bem vistos. É o que acontece em BH com a rua Sapucaí e a região da Savassi e em São Paulo com a rua Augusta e a Vila Madalena.

No final das contas, ter itens caros não é sinônimo mais de elite ou mesmo de ser rico. Parcelando tudo em dez vezes no cartão, alguns ítens de consumo se tornam acessíveis. Isso fez com que os donos de algumas marcas se sentissem incomodados por estarem abundantemente sendo consumidas por pessoas da classe C. Mesmo caros, seus produtos perderam seu ar de exclusividade que atraia a classe A. É importante vender mas não se tornar popular para continuar a ser objeto de desejo. Daí o aumentam os preços. Mas a tecnica maior de consumo é oferecer experiências e a estética industrial e retrô vende simplicidade, uma ideia (legítima) de que não é preciso muito para ser feliz e se divertir. Contudo, o integral custa mais que o ultra processado; o reciclado, que o novo; ir para o trabalho de bicicleta, e não em veículo motorizado, implica em morar em localização privilegiada. No final das contas, na lógica do mercado, a simplicidade é cara.

Campanha de Popularização do Teatro e da Dança

Mesmo que a lógica do capital insista em tornar tudo dispendioso, ainda é possível se divertir gastando pouco e usufuir de produtos de qualidade, mesmo culturais. Uma das grandes oportunidades é a Campanha de Popularização do Teatro e da Dança, que chega em sua 45ª edição. Tendo começado dia 3 de janeiro, a campanha vai até 24 de fevereiro. São apresentadas diversas peças teatrais e musicais voltadas ao público adulto e infantil não só em BH, mas também em Betim, Contagem, Juiz de Fora, Nova Lima, Ribeirão das Neves, Sete Lagoas e até em Recife. Tudo a preços populares.

Confira: https://www.vaaoteatromg.com.br/

Gilmar Pereira
Gilmar Pereira é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP; bacharel e licenciado em Filosofia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CESJF); bacharel em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Também possui formação em Fotografia pelo SESI-MG/ Studio 3 Escola de Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante há 18 anos, com grande experiência no campo religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito e ministra a disciplina ''A comunicação como evento teológico'' na especialização ''Desafios para a Igreja na Era Digital''.
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas