11 Jan 2019 | domtotal.com

Cercas e limites do 'politicamente correto'

Qual a concepção de educação por trás destas conclusões? Como se daria o processo de formação destes jovens sujeitos de direito? É plausível dizer que sentem falta de limites?

A educação tem como um dos principais desafios lidar com a contradição de formar jovens e adultos autônomos e responsáveis.
A educação tem como um dos principais desafios lidar com a contradição de formar jovens e adultos autônomos e responsáveis. (Pixabay)

Por Marcel Farah

Certa vez um professor me disse que a geração de jovens de hoje sente falta de limites. A causa seria a criação das crianças sem o uso do “não”, em um estilo “politicamente correto” em voga entre as recomendações educacionais mais atuais.

Por este motivo, haveria, segundo o mesmo professor, uma busca pela figura paterna e autoritária, o que explicaria o crescimento da aceitação de figuras públicas com esse perfil. Em suma ele dizia que o estilo “politicamente correto” seria o culpado pelo crescimento do autoritarismo.

Qual a concepção de educação por trás destas conclusões? Como se daria o processo de formação destes jovens sujeitos de direito? É plausível dizer que sentem falta de limites?

O raciocínio apresentado trabalha com uma premissa insólita, a de que haveria necessidade das pessoas, destes jovens, de limites para se realizarem enquanto sujeitos. É como se o delineamento da personalidade de cada pessoa dependesse somente de limites impostos externamente. Como se a margem a definir o leito das personalidades, como em um rio, dependesse apenas das propriedades do solo em que corre, não interagindo com a água. Contudo, é exatamente esta dinâmica de interação entre as condições, contingências e potencialidades do ambiente social com os desejos, as preferências, as opções da pessoa que os limites se estruturam. É uma falsificação do processo educativo, dialético por essência, dizer que jovens setem falta de limites. Ao mesmo tempo é uma explicação fácil que legitima interesses obscuros.

A educação tem como um dos principais desafios lidar com a contradição de formar jovens e adultos autônomos e responsáveis. As pessoas são educadas para viver em sociedade e garantir a universalidade dos direitos. É um erro pensar que “seu direito acaba onde começa o direito do outro”, pois seu direito só existe a partir da existência do outro, é um fenômeno relativo, depende da relação entre as pessoas, por isso é essencialmente social. Assim se estruturam os limites, como os direitos, a partir da relação social, e não pela imposição da figura paterna e autoritária.

Por tudo isso, não há ausência de limites externos, pois esses são formados junto com a autonomia dos sujeitos. O que provavelmente haja é uma confusão na formação das pessoas quanto ao que são direitos e mesmo limites. Não são como uma cerca que limita a propriedade privada. Os limites são a interação e não a separação destes direitos.

Quando a educação pende para esta análise, de que falta impor limites, está abrindo o caminho para que o autoritarismo seja justificado. Por isso a crítica ao “politicamente correto” vem a calhar para quem quer se justificar como autoritário e também legítimo.

Marcel Farah
Educador Popular
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