16 Jan 2019 | domtotal.com

Subir em ombros de gigantes

É arrogante, não altivo, desprezar o ombro de gigantes que lhe é oferecido e pretender começar tudo do zero.

Pragmático – Ballet Jovem Minas Gerais no VAC 2018.
Pragmático – Ballet Jovem Minas Gerais no VAC 2018. (Reprodução/ ©Glenio Campregher/ veraoarte.com.br)

Por Gilmar Pereira

Morar em regiões montanhosas ensina que, para alargar horizontes, faz-se necessário subir os montes e, assim, olhar além. Nem sempre é necessário construir uma torre, basta escalar o que já existe, elevar-se sobre o que já se tem. Há sempre, sim, que se movimentar. Assim funciona o pensamento.

Parece que a sociedade atual acomodou-se num vale onde o sol se esconde cedo e, por isso, logo escurece. Por não verem soluções, entregam os pontos facilmente. Mas o jogo não terminou. Às vezes basta mudar de lugar, observar de outro ângulo. Subir os montes, elevar o pensamento e olhar as coisas até mesmo com certa altivez.

Altivez é virtude. Contudo, importa diferenciá-la da soberba ou orgulho. O altivo é alguém ciente da própria dignidade, não cheio de si. Nesse sentido, não é altivo escolher a própria pior versão. Isso seria abaixar-se em demasia. A altivez está ligada a nobreza. Pessoas de espírito grande ou elevado, na busca de sua melhor versão, do seu melhor, atêm-se a horizontes mais amplos.

E é tão pequeno brigar por pouca coisa! É tão medíocre crer que já se é suficientemente bom! Subir os montes para olhar além nem sempre é fácil, mas o reconhecer os próprios limites é o que cria a necessidade de lhes transpor e crescer. Esse esforço, porém, não precisa ser uma tarefa solitária, embora cada qual seja o único autor da própria caminhada. Há outros que já trilharam caminhos parecidos, que abriram a picada para que outros também pudessem passar.

Uma frase de Isaac Newton sobre esta temática se tornou célebre: “Se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes”. Essa expressão remonta a outra que falava de anões sobre ombros de gigantes, atribuída a Bernardo de Chartres, filósofo do séc. XII. Para ele, podemos ver além do que aqueles que nos antecederam, não por termos maior visão ou altura, mas porque somos levantados e carregados por estes em sua estatura gigantesca. Ou seja, podemos aprender com os erros e acertos dos outros para ir mais longe, para ver melhor.

A ciência já caminhou bastante para que alguém tenha que redescobrir que a Terra não é plana. A experiência de outros países já mostrou que o aumento do número de armas de fogo não gera mais paz e segurança num país e, portanto, não é necessário ter que descobrir a mesma coisa a custa de mais mortes. Já há inúmeros e extensos trabalhos de exegese bíblica para que alguém julgue que sua livre e literal interpretação das Escrituras está correta e não precisa de critérios. A ciência avançou o suficiente para não termos que reviver a "Revolta da Vacina" por medo causado por teorias transmitidas em mensagens no celular. Já há inúmeros estudos sobre tantas coisas que dispensam a necessidade de que alguém comece do zero e queira reinventar a roda.

É arrogante, não altivo, desprezar o ombro de gigantes que lhe é oferecido e pretender começar tudo do zero. Será que é preciso fazer um cruzeiro para se chegar a suposta borda do mundo para reconhecer que a terra não é plana ou, quem sabe, fazer uma viagem espacial para olhar o globo de cima? Um saber se constroi sobre outro. Mesmo a física de Einstein não despreza a de Newton. As correções de um não invalidam totalmente o outro. Ignorar conhecimentos prévios é típico de quem pouco os tem. Talvez aqui valha o mote socrático do "sei que nada sei". Quanto mais se adquire saber, mais se sabe que o próprio saber é pouco. Por isso é bom apoiar-se sobre ombros maiores.

O problema atual é nunca assumir a própria ignorância. Nas redes sociais, uma grande massa quer parecer crítica e opinar sobre tudo: religião, arte, política, economia, direito, ciências, filosofia, sociologia. Contudo, pretende-o sem estudo, leitura ou base alguma. Não há problema em reconhecer que não se sabe algo ou que a informação que se tem é insuficiente. Só quem reconhece a própria posição, onde se está, é que pode escolher para onde quer ir. E para ter uma noção de onde ser quer chegar, há de se ampliar horizontes.

VAC - Verão Arte Contemporânea

A arte é um dos grandes instrumentos para que se possa ampliar a visão, principalmente se as expressões artíticas estiverem abertas ao novo e dialogarem com a contemporaneidade. Uma oportunidade para isso está num evento que está já na sua 13ª edição, o VAC - Verão Arte Contemporânea, que abre espaço para a experimentação, a diversidade expressiva e os novos formatos na criação artística. Apesar da abertura oficial ser no dia 23 de janeiro, o VAC já conta com uma atividade na véspera. O evento versa em diversas artes como artes visuais, arquitetura, cinema, dança, gastronomia, literatura, música e teatro. Mais informações na página do VAC no Facebook.

Gilmar Pereira
Gilmar Pereira é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP; bacharel e licenciado em Filosofia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CESJF); bacharel em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Também possui formação em Fotografia pelo SESI-MG/ Studio 3 Escola de Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante há 18 anos, com grande experiência no campo religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito e ministra a disciplina ''A comunicação como evento teológico'' na especialização ''Desafios para a Igreja na Era Digital''.
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