22 Jan 2019 | domtotal.com

Hegel, Feuerbach e Marx, discussões prévias


Hegel, Feuerbach e Marx
Hegel, Feuerbach e Marx (Reprodução)

Por Newton Teixeira Carvalho

Ainda alicerçado na obra de Norberto Bobbio: Nem com Marx, nem contra Marx”, continuemos nossas colocações sobre o debate, sempre atualizado, sobre socialismo e sobre capitalismo, ou seja, entre esquerda e direita. Entretanto, antecipamos entendimento no sentido de não ser correto filiar a uma ou a outra corrente de pensamento, cegamente,  e, a partir daí, começar a combater o outro lado, desprezando-o, por completo, tendo-o como inimigo.

Estas noções serão necessárias para entendimentos dos demais artigos posteriores sobre capitalismo e socialismo que, reafirmamos será sem pretensão de filiação a uma ou a outra corrente ideológica. Será um debate com a finalidade de verificar o que pode ser corrigido, dentro do próprio capitalismo, na busca de uma justiça distributiva. De uma justiça substancial, evitando-se enorme concentração de riquezas em nome de poucos.

Com relação à Marx, na obra os Manuscritos, uma crítica da economia, do direito, da moral, da política etc.,  discute este  autor a respeito do vício de origem da filosofia hegeliana que, consequência do abstrativismo, advindo do uso da dialética especulativa ou idealista, e que, por consequência, como movimento da consciência consigo mesma, acaba por fazer do processo histórico uma expressão abstrata, lógica e especulativa,”, distanciando da história real do homem.

Marx, ao combater Hegel, foi influenciado por Feuerbach, considerando que foi este filósofo que, na verdade, superou a velha filosofia, eis que é o único que criticou, seriamente, a dialética hegeliana, iniciando, então, a crítica positivista, humanista e naturalista.

Assim, a contribuição de Feuerbach é abreviada por Marx em três pontos: a) crítica da filosofia como religião, reduzida a conceitos. b) fundação do verdadeiro materialismo e da ciência real, mediante a elevação da relação social do homem como o homem à condição de princípio fundamental da teoria; c) substituição da positividade sensível, imediata, fundada apenas em si mesma, pela positividade hegeliana, mediata, que resulta do processo dialético e se identifica com a negação da negação.

Os três pontos antes citados são de suma importância à Marx. O terceiro deles é o fio condutor à crítica da dialética hegeliana; o segundo constituiu a tese inicial do humanismo social de Marx e o primeiro é a filosofia da práxis, o que acaba por distanciá-lo do próprio Feuerbach.

Com a crise do positivismo, o século XX tomou o caminho rumo à grande filosofia europeia do século XIX, com o fim do otimismo idealista ao final da Primeira Guerra Mundial.  De Kierkegaard aflorou o moderno existencialismo, na procura do ser concreto do homem, reencontrado na experiência do pecado e da redenção e vivendo em um mundo de expiação, numa teologia/filosofia.

Com Feuerbach, também rompendo com o sistema hegeliano e ao contrário de Kierkegaard, a existência do homem não é revelada mediante a comunicação com Deus, mas sim através da vida social, pela comunicação com os outros homens.  Surge o ser necessário, em Feuerbach, ou seja, advindo do amor de seus semelhantes. Somente o ser que tem necessidades é um ser necessário: uma existência sem necessidade é uma existência supérflua, diria Feuerbach.  Lado outro, o ser que não é amado, não o é. O amor é o critério do ser e, com isso, da verdade e da realidade. Onde não há amor não há verdade. Somente aquele que ama alguma coisa é alguma coisa. Não ser nada e não amar nada é o mesmo.

Assim, a existência humana, em Feuerbach, surge da necessidade e é realizada através do amor. Do indivíduo singular de Kierkegaard, irrompidos os laços que o uniam a Deus, nascerá o ser para a morte de Heiddeger, protagonista mais estreme do existencialismo.  Do homem concreto de Feuerbach, liberado da necessidade da mentira e do amor universal, nascerá o proletariado de Marx, posto que o amor do homem pelo homem, o amor humanizado, é o último termo do pensamento  Feuerbachiano. É a substituição do amor de Deus pelo amor pelo homem.

Na verdade Feuerbach e Kierkegaard no fundo falavam a mesma língua, com fundamentação diferente, ou seja, a busca da solidariedade que devem existir entre todos os seres, porém e para Feuerbach, para colocar em prática este princípio não há necessidade de uma religião e sequer da existência de Deus.

A filosofia de Hegel pode ser considerada como uma visão escatológica da história, enquanto teologização da história humana.   E Marx somente pode ser considerado como questionador e refutador da filosofia hegeliana, se demonstrado, segundo Bobbio, o desaparecimento de todo resíduo de visão escatológica da história.

Assim, Marx faz a seguinte inversão, com relação à Hegel: o filósofo, ao refletir  sobre a história, deve observar o homem. Para Hegel a história é a do homem teórico, que se conclui no saber absoluto, na fundação do homem teórico total. Para Marx a história é a história do homem prático que se conclui na sociedade absoluta (o comunismo). Porém, tanto Marx como Hegel prescrevem à história um fim absoluto e uma finalidade absoluta a serem realizados neste mundo.

Assim e apesar de Marx ter chegado à concepção da história através da história da produção e não mais por intermédio da reflexão sobre o movimento dialético das ideais, podemos concluir, com Bobbio, que a economia de Marx é uma economia mistificada, considerando que os resultados científicos, isto é, válidos no âmbito da razão científica, foram convertidos em explicação e em justificação da história universal. Portanto, Marx não conseguiu desmistificar Hegel, por completo, considerando que a economia, que deveria operar a desteolozização de sua filosofia, acabou por ser ela mesma teologizada.

Newton Teixeira Carvalho
Especialista em Direito de Empresa pela Fundação Dom Cabral. Mestre em Direito Processual Civil pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Doutor em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Pós doutorando em Investigação e Docência Universitária pelo IUNIR – Instituto Universitário Italiano de Rosário/Argentina. Desembargador do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Membro do IBDFAM/MG. Professor de Direito de Família da Escola Superior Dom Helder Câmara. Coautor de diversos livros e artigos na área de direito ambiental, família e processual civil.
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