20 Jan 2019 | domtotal.com

Culpa

Quem resiste à dor da culpa não avança para a nova etapa, que é a da mudança de vida.

Cena do filme 'Culpa'.
Cena do filme 'Culpa'. (Divulgação/ Copyright J.Spanning)

Por Gilmar Pereira

Arrepender-se é escolher a si mesmo. Já dizia o filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard que “Escolher a si mesmo é idêntico a arrepender-se de si mesmo”. Quando nos arrependemos, doemo-nos por aquilo que temos sido. E é justamente nesse ponto que temos condição de nos apropriarmos de quem somos, escolher sobre o nosso próprio ser e que vida queremos ter. Por isso o filósofo entendia o arrependimento como ponto alto da vida ética.

Quem se arrepende reconhece a própria culpa e é esse reconhecimento um momento dramático na vida do indivíduo. À medida em que é dor, arrepender-se é sempre um ato de vulnerabilidade. Não só porque consiste num assumir das próprias fraquezas, mas também porque é preciso aniquilar uma forma de ser para surgir outra. A dor do arrependimento faz morrer um modo de vida, abrindo espaço para outra.

O problema está em resistir à dor da culpa. Quem resiste não avança para a nova etapa, que é a da mudança de vida. Há pessoas que param na culpa, não levam a termo a dor que sentem e, desse modo, vivem se culpando, infelizes, incapazes de recomeçar. Talvez por isso muitas acabem repetindo os mesmos erros. A culpa que não chega ao arrependimento é apenas remorso. Consiste ainda num considerar-se tão bom que não se pode conceber que acabou errando. O remorso pode ser simplesmente uma face do orgulho.

Arrependimento não, nele não há orgulho ou resistência. Existe um doer-se pela própria maldade, ao passo que se aspira ao bem. É a dor por querer o bem, mas escolher o mal. O arrependido não camufla dizendo que, embora culpado, não tinha culpa por que escolheu equivocadamente. O mal que se faz é também uma escolha e dizer que não se queria isso é mentir para si mesmo. O arrependido sabe que escolheu o mal porque assim o quis, mas que isso não coaduna com o bem que ele também quer – sim, em nós conjugam-se desejos paradoxais.

A conversão que a fé cristã propunha em suas origens – e ainda propõe – não era a adesão simples a uma associação religiosa, a prática de ritos ou a profissão vazia de um credo. Converso nunca foi quem entrou para uma igreja. Conversão, no grego metanoia, era mudança de mentalidade, significando uma mudança de vida, de pensar e sentir que resultava numa nova organização do viver. Implica em uma morte do "eu", mas que resulta na ressurreição de si. Arrependimento é a força de fragilizar-se, renunciar um modo de vida para assumir a própria vida de modo novo.

O filme dinamarquês The Guilty ( ou Den skyldige, em dinamarquês), traduzido no Brasil como Culpa, trata dessa experiência de redenção que vem do assumir-se mal. O policial Asger Holm (Jakob Cedergren) sofre uma sanção disciplinar que o tira das ruas e o coloca no atendimento telefônico da urgência, lá onde repassa as chamadas que recebe às delegacias próximas às ocorrência. Seu julgamento, que poderá levá-lo de volta à sua função, acontecerá no dia seguinte. Justamente no seu possível último dia na central de emergência é que Asger recebe a chamada de uma mulher que finge conversar com a filha pequena disfarçando seu sequestro. Ela não pode chamar a atenção de seu sequestrador e, portanto, não consegue dar informações precisas de onde está. Seu tempo ao telefone é breve e cabe ao policial correr contra o tempo para conseguir localizar a mulher e conseguir enviar policiais. [Caso não queira spoiler, termine o texto aqui. Ele continua depois do trailer.]

O filme é claustrofóbico porque se dá o tempo todo na central de emergência, com a câmera sobre o personagem principal. Ao mesmo tempo, o espectador se sente numa perseguição porque entra nessa corrida contra o tempo e se coloca junto àqueles que estão do outro lado da linha. A única mudança de cenário se dá quando Asger sai da sala maior, onde estão diversas baias de atendimento, e vai para uma salinha a parte, no fundo da que estava, e ali se fecha, baixando as persianas. Ele precisa ir mais para dentro, fechar-se na escuridão para ouvir as vozes, das chamadas telefônicas e as do seu próprio tormento.Seus julgamentos e erros levam-no ao quebrantamento de si e a quebrar a salinha, ruptura necessária para sair de lá e ver e ouvir as coisas desde fora.

O reconhecimento de seus erros não pode ser no lugar fechado, não pode ser só no seu interior, precisa reverberar no espaço público, precisa ganhar luz. E é justamente isso que ocorre. Quando ele se assume mal, quando reconhece suas fraquezas e abre mão de salvar a si mesmo, quando ele está mais exposto e frágil, neste momento é justamente quando ele se torna mais forte e é verdadeiramente bom e descentrado. O abismo de sua culpa encontra eco no abismo da culpa da mulher do outro lado do telefone. Ele grita sua maldade e o que a voz ao telefone lhe ecoa é "você é um homem bom".

Gilmar Pereira
Gilmar Pereira é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP; bacharel e licenciado em Filosofia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CESJF); bacharel em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Também possui formação em Fotografia pelo SESI-MG/ Studio 3 Escola de Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante há 18 anos, com grande experiência no campo religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito e ministra a disciplina ''A comunicação como evento teológico'' na especialização ''Desafios para a Igreja na Era Digital''.
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas