31 Jan 2019 | domtotal.com

Desespero de uma rapsódia boêmia

Mais do que um filme sobre Freddie Mercury ou mesmo sobre a banda de que faz parte, o Queen, a história fala do desespero.

Negação e afirmação sobre si digladiam no indivíduo.
Negação e afirmação sobre si digladiam no indivíduo. (Divulgação/ Copyright 2017 Twentieth Century Fox)

Por Gilmar Pereira

Com uma atuação marcante de Rami Malek, o filme Bohemian Rapsody tem encantado os fans do Queen. Numa segunda camada, conta-se a história da banda e de seus sucessos, mas centra-se na vida do vocalista, o que constitui a primeira camada e fio condutor. Entretanto, o filme toca um drama existencial, o do desespero.

Logo nas cenas iniciais, Farrokh Bulsara se detém com uma bagagem com motivos britânicos de um avião que ajuda a descarregar. Em sua distração, deixa que outras malas caiam da esteira. Alguém lhe chama a atenção, tratando-o como “Paquistão”, o que ele renega. De fato, o rapaz nascido em Zanzibar tem origem parse, grupo étnico que migrou do Irã para Índia e Paquistão por perseguição muçulmana. Ele quer negar suas raízes em vista do que entende que nasceu para ser, uma estrela.

É nesse drama de negar quem se é para tentar ser quem se crê ser, que Farrokh Bulsara se torna Freddie Mercury, sem se dar conta de que ambos são um só. Nessa busca, ele se perde de si, adquirindo um modo de vida que o leva a atirar-se no mundo com intensidade e em uma série de relações superficiais que o dragam. Vivendo na exterioridade, tem a interioridade atormentada. Perdendo-se, perde também aos poucos suas relações de intimidade: família, namorada, amigos da banda.

Mais do que um filme sobre Freddie Mercury ou mesmo sobre a banda de que faz parte, o Queen, a história fala do desespero. Segundo o filósofo Kierkegaard, a “Doença do espírito, do eu, o desespero pode como tal tomar três figuras: O desespero inconsciente de ter um eu (o que é verdadeiro desespero); o desespero que não quer, e o desespero que quer ser ele próprio”. De forma geral, esse sentimento se dá no apelo de ser si mesmo na grandeza que se intui e na dor por ser quem se é. Negação e afirmação sobre si digladiam no indivíduo.

Contudo, o filme não lança o espectador no desespero do protagonista, que chega ao cume quando este se coloca diante da possibilidade da morte, mas na fruição das músicas do Queen. Esquece-se de que uma rapsódia, na liberdade com que integra variações fortes de tema, intensidade, tonalidade, sem seguir necessariamente uma estrutura pré-definida, implica certa vertigem. O filme prefere fugir do desespero pela estética musical a mergulhar na vertigem da liberdade de uma vida boêmia. Ouve-se Bohemian Rapsody em vez de se sentir a rapsódia boêmia da vida que é condição de possibilidade para se fazer a escolha fundamental, a escolha sobre si.

O filme soa como uma propaganda para o Queen e foge do mais dramático da vida de Mercury. Ainda assim, deixa vislumbrar que a reconciliação com aquilo que se rejeita de si é o caminho para um salto existencial. Quando Freddie deixa de fugir de si é que retoma amigos, família, amor. Em face da morte - fim do mundo em cuja exterioridade o indivíduo se atira, desesperado por ser quem se é – só resta retornar para a própria interioridade em busca do que fundamenta a grandeza que pressente em si.

Gilmar Pereira
Gilmar Pereira é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP; bacharel e licenciado em Filosofia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CESJF); bacharel em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Também possui formação em Fotografia pelo SESI-MG/ Studio 3 Escola de Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante há 18 anos, com grande experiência no campo religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito e ministra a disciplina ''A comunicação como evento teológico'' na especialização ''Desafios para a Igreja na Era Digital''.
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas