07 Fev 2019 | domtotal.com

Caminhos da igualdade

A história se passa nos Estados Unidos, em 1962, pouco antes da eclosão da luta pelos direitos civis

Viggo Mortensen e Mahershala Ali vivem excelentes papéis num filme marcado pela sensibilidade.
Viggo Mortensen e Mahershala Ali vivem excelentes papéis num filme marcado pela sensibilidade. (Divulgação / Green Book)

Por Jorge Fernando dos Santos

Em cartaz em vários cinemas, a comédia-dramática “Green book – Um guia para a vida”, dirigida por Peter Farrelly, entrou para a lista dos dez melhores filmes de 2018, faturou dois Globes Awards e concorre ao Oscar nas categorias de melhor filme, ator principal, ator coadjuvante, montagem e roteiro original.

A história se passa nos Estados Unidos, em 1962, pouco antes da eclosão da luta pelos direitos civis. Tudo começa em Nova York, quando a casa noturna Copacabana fecha as portas e o leão de chácara Tony Vallelonga, vulgo Bocudo (interpretado por Viggo Mortensen), perde o emprego. Homem durão próximo da Máfia, o brutamontes não gosta de negros, mas dentro em breve mudará seus conceitos.

Com mulher e dois filhos para sustentar, Bocudo precisa de um novo trampo e vê uma boa oportunidade ao ser indicado para ser motorista do pianista de jazz clássico Don Shirley (Mahershala Ali). Reprovado na primeira entrevista, Tony é surpreendido com um telefonema no qual o músico informa que ele foi escolhido para conduzi-lo numa turnê pelo Sul do país.

De maneira leve e divertida, a comédia emociona pela veracidade da história. Menino pobre, o Shirley da vida real aprendeu a tocar teclados com a mãe e teve a sorte de ser descoberto por um produtor que o levou para estudar na Europa. Fã de compositores clássicos como Liszt e Chopin, ele tocava jazz para ganhar a vida e acabou se tornando um excêntrico solitário.

Revendo Miss Dayse

O filme aborda o tema do racismo de forma sutil, sem discursos ou conjecturas filosóficas. O ódio aos negros no Sul dos EUA se tornara cada vez mais flagrante, desde a abolição da escravatura e a derrota das forças confederadas na Guerra Civil (1861 a 1865). Afastado dessa realidade, Shirley resolve ver o diabo de perto.

Mesmo aclamado pela crítica, ele se sente apartado do seu povo, cuja cultura não compreende direito. De formação erudita, sequer conhece os grandes astros da música negra. Por outro lado, também não encontra lugar entre os brancos, que constituem sua principal plateia. Assistindo às suas apresentações, Tony aprende a admirá-lo. Viggo Mortensen e Mahershala Ali vivem excelentes papéis num filme marcado pela sensibilidade – embora o roteiro se mostre previsível em algumas cenas.

“Green Book” lembra o clássico “Conduzindo Miss Dayse”, de 1990, no qual um motorista negro leva uma senhora judia numa viagem semelhante à de Tony e Shirley. Dirigida por Bruce Beresford e estrelada pela veterana Jéssica Tandy, essa comédia ganhou vários Oscars e consolidou o talento de Morgan Freeman. Nas duas histórias, a viagem se torna uma travessia pelos caminhos da igualdade.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Ed. Atual), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio da APCA em 2015; e A Turma da Savassi (Quixote).
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