08 Fev 2019 | domtotal.com

Marcha do quê?

Um dos maiores dramas da família brasileira é a pensão alimentícia, direito de filhos e filhas cujos pais os abandonaram, criados por mães guerreiras, destas que se conhece em todas periferias.

Esta imagem deve ilustrar algo em torno de 10% das famílias brasileiras
Esta imagem deve ilustrar algo em torno de 10% das famílias brasileiras (Pixabay)

Por Marcel Farah

Me deparei com uma marcha pela família brasileira sendo convocada em Goiânia-GO, cidade onde resido.

Para meu previsível espanto a divulgação é ilustrada com uma suposta família, branca, com um casal hétero abraçando sua filha, de cabelos loiros. Esta imagem deve ilustrar algo em torno de 10% das famílias brasileiras, pois os outros 90%, tradicionalmente, tem a mãe solteira, negra de periferia, o pai que é o papai noel, só aparece uma vez por ano, e olha lá.

A contemporaneidade ficou conhecida como modernidade líquida nas palavras de Zygmunt Bauman. Não deixa de ser modernidade mas se diferencia da forma anterior, sólida. A solidez da modernidade, pode-se dizer, segundo Bauman, foi ultrapassada com a quebra de vários paradigmas explicativos nas diversas áreas do conhecimento e da cultura, não deixou de reconhecer que o mundo é dividido entre proprietários de um lado e trabalhadores de outro, mas a transformação da realidade é mais complexa do que até então pensado. É como se o capitalismo e sua lógica se infiltrassem em cada poro da humanidade que para expurgá-lo deve reinventar-se humana.

Um dos maiores dramas da família brasileira é a pensão alimentícia, direito de filhos e filhas cujos pais os abandonaram, criados por mães guerreiras, destas que se conhece em todas periferias. Mulheres, trabalhadoras, honestas e acima de tudo fortes, muito fortes, dignas de muito maior reconhecimento do que realmente têm. A pensão alimentícia, em geral, veio seguida da traição, ou do desentendimento entre mulher, mãe, e o homem, não sem que, várias vezes, tenha passado pela violência doméstica, ou por outros percalços em que o machismo, socialmente reinante, garantiu melhores condições para que o homem se sobressaísse, e que a mulher fosse rotulada como “mãe solteira”. Não há pai solteiro, não comumente, por que?

Os maiores dramas das famílias brasileiras são os dramas das mulheres de uma sociedade machista.

A liquidez da modernidade trouxe consigo incerteza em relação aos padrões tradicionais. A família biparental (pai e mãe) deixou de ser modelo, não somente na sociologia, mas na realidade concreta. Foi, inclusive, por isso que deixou de ser modelo na sociologia, não se trata de invenção científica, mas de constatação. Até mesmo a ideia de grupo reunido sob a consanguinidade é insuficiente para abrigar a diversidade de grupos que se identificam como familiares, com amigos da família que moram de favor, agregados etc.

O que era sólido se desmanchou no ar, os padrões foram liquidados, as certezas relativizadas. As relações sociais, assim como as mercadorias já nascem com prazo de validade. A incerteza e a imprevisibilidade são as marcas da vida urbana, principalmente para a mercadoria força de trabalho. A classe trabalhadora sofre com a insegurança quanto ao emprego, quanto aos direitos, quanto à previdência, quanto à mitigação da igualdade, quanto à violência policial, quanto ao despejo.

Ao pai cabe o sustento, o emprego, o trabalho e o “merecido” descanso. A mulher não cansa, não trabalha, não sustenta, mas sem ela ninguém seria criado, educado, cuidado, alimentado, mantido limpo e bem passado. Mas o pai não tem mais emprego, a mulher luta por reconhecimento e emprego, a dinâmica da casa muda, mas a classe deve permanecer oprimida, o trabalho doméstico teve direitos garantidos, a mãe como arrimo de família aflige o consciente coletivo do machismo e da perda de privilégios da classe média. A mistura de crise econômica e de costumes gera maior sensação de insegurança e a classe trabalhadora pega carona nas reivindicações medianistas que se apresentaram salvadoras.

A reação veio a galope. Temendo a liquidez, e a crise, voltamos a permitir discursos fascistas. Mas, a família brasileira não é a que aparece na divulgação da marcha. A marcha deveria ser chamada de marcha da hipocrisia tradicional brasileira. Por ela, nela, e após ela, vivemos em uma sociedade violenta, machista, autoritária, que mata as mulheres por serem mulheres, mata travestis por serem travestis, mata mães de santo por serem macumbeiras, mais mata do que educa, e a grande preocupação da marcha da família é a “doutrinação nas escolas”. “Doutrinação” que quer mostrar a realidade das relações de gênero, o machismo e a injustiça social? Seria mesmo doutrinação? É isso mesmo que acontece nas escolas?

A insuficiência das escolas sempre foi não trabalhar com a realidade concreta, não abrirem seus muros para os problemas das comunidades. Fossem as escolas assim, exportaríamos médicos e não os importaríamos, haveria acesso à justiça, as pessoas seriam respeitadas pela polícia independente de sua classe, mães seriam incentivadas a lutar por mais direitos e menos pais deixariam suas famílias, e o principal problema brasileiro seria como distribuir a riqueza, tão concentrada em nosso país.

Mas, infelizmente as escolas não são assim, e o que é pior, nem sabem se defender da acusação de “doutrinação de esquerda”, pois isso foi inventado pela mesma alucinação que diz ser a família do cartaz, a família brasileira.

Marcel Farah
Educador Popular
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