14 Fev 2019 | domtotal.com

Roma e a revolução

Toda revolução depende de uma afetação profunda que gere uma indignação de tal modo que mova a pessoa a se levantar.

O filme 'Roma' de Alfonso Cuarón concorre ao Oscar deste ano.
O filme 'Roma' de Alfonso Cuarón concorre ao Oscar deste ano. (Copyright Netflix)

Por Gilmar Pereira

Muito já se falou sobre o filme Roma e as intenções do autor. Esta pouco importa porque, como obra de arte, em seu caráter de abertura, tem o espectador com coautor à medida que ele recria para si aquilo que assiste. Nesse sentido, algumas coisas chamam a atenção no filme de Cuaron, podendo ser destacadas e, assim, ajudar na leitura da obra.

Logo no início, uma imagem marcará todo o longa: um avião que passa. Estamos no anos 70, década de ouro da aviação. No céu, o sinal do progresso, revolução em curso. No chão, entretanto, outras revoluções. Época da libertação sexual e de uma série de convulsões políticas, como a que culminou no massacre de Corpus Christi, retratado no filme. Temos grandes temas mundiais e nacionais e que, de alguma forma, refletem-se no chão da sociedade, em pequenas revoluções.

Vemos, portanto, a vida de Cleo e da família de classe média para a qual trabalha. Ali, embora a vida transcorra com aparência de certa estabilidade – como a da câmera do filme, quase sempre no tripé –, as pequenas revoluções acontecem em meio à estrutura conservadora da sociedade que quer se manter estável. Dialogam, assim, dimensões antagônicas, como a de um filme preto e branco numa produção tecnológica. Há uma jovem que se emancipa sexualmente, mas que vive na casa dos patrões; há o processo rudimentar de lavar o chão e o moderno de viagem aérea; a independência de uma mulher que dirige e a estrutura do patriarcado se fazendo valer.

Essas polaridades do filme não são antagônicas. Elas coexistem num ritmo melancólico, mas cumulativo, e que, como uma caixa d’água, deixa escapar o excesso pelo ladrão. São as pequenas revoluções que vão tomando conta da história, como a decisão de Cleo em levar a gestação sozinha (ainda que rejeitasse a maternidade) ou a da patroa em assumir a separação e a reorganização da própria vida, afirmando-se mulheres e senhoras de si, num apoio mútuo quase silencioso. São mulheres de resistência em cuja figura se vislumbra a mudança cultural que parece tangente ao temas tidos como grandes e masculinos como a repressão aos protestos no massacre ou mesmo a vida acadêmica e profissional levada pelo patrão. Talvez caiba aqui a máxima da poeta Ana Cristina César: “As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios”. Ela faz eco a outra sentença do filme: "Digam o que nos disserem, nós, mulheres, estamos sempre sozinhas".

Sobre revoluções, importa lembrar que só são autênticas quando mudam de fato o curso da história. Se um governo é derrubado por sua corrupção e outro igualmente corrupto toma seu lugar, não é revolução o que acontece, mas farsa. Toda revolução depende de uma afetação profunda que gere uma indignação de tal modo que mova a pessoa a se levantar, a se erguer contra as estruturas e situações opressivas. Para que alguém se levante de alguma degradação, faz-se necessária  uma boa dose de indignação, de um não contentar-se do mal, de uma indisposição que promova mudança. Ou como foi dito no próprio filme: "Não esperem milagres. O único milagre habita em sua própria vontade". Essa vontade é, de alguma forma, vontade de potência (expressão Nietzschiana), que leva a dizer sim à vida e ao mundo.

Gilmar Pereira
Gilmar Pereira é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP; bacharel e licenciado em Filosofia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CESJF); bacharel em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Também possui formação em Fotografia pelo SESI-MG/ Studio 3 Escola de Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante há 18 anos, com grande experiência no campo religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito e ministra a disciplina ''A comunicação como evento teológico'' na especialização ''Desafios para a Igreja na Era Digital''.
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas