19 Fev 2019 | domtotal.com

Fazer a diferença

Fazer a diferença é transformar, redimir, redirecionar a humanidade em outro sentido do que aquele que parece pré-determinado e banhado pela lama da fatalidade.

Chico Mendes foi reconhecido, por lei, como patrono nacional do meio ambiente.
Chico Mendes foi reconhecido, por lei, como patrono nacional do meio ambiente. (Divulgação)

Por Maria Clara Bingemer

Se alguém se destaca em determinada área e altera uma situação de fato em um sentido melhor ou mais justo, se diz que “faz a diferença”. Tudo aquilo que muda situações, circunstâncias, vidas, para melhor faz a diferença. Toda atitude, posicionamento, discurso, comportamento que conduz a história a girar em direção contrária àquela previamente estabelecida, é reconhecida como algo que faz a diferença.

Fazer a diferença, portanto, é transformar, redimir, redirecionar a humanidade em outro sentido do que aquele que parece pré-determinado e banhado pela lama da fatalidade. É abrir caminhos novos e com ações às vezes muito humildes e pequenas fazer brotar grandes mudanças.  É dar identidade e dignidade aos vulneráveis e vencidos, a partir de uma solidariedade que lhes permite ser sujeitos e atores de seu próprio processo de libertação.

À luz dessas afirmações, continuo estupefata com a entrevista do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, no programa Roda Viva, da TV Cultura. Ao referir-se ao seringueiro e ambientalista Chico Mendes, comentou com um despectivo dar de ombros: “Que diferença faz quem é Chico Mendes?”  Suspeito que a resposta do ministro é fruto de seu profundo desconhecimento da figura do seringueiro, sindicalista, ativista político e ambientalista brasileiro, que lutou incansavelmente em favor dos povos da Bacia Amazônica, e defendeu com a própria vida a floresta que era a fonte de sua subsistência.  

No dia seguinte ao programa, ainda sob o impacto da repercussão que sua fala tivera sobre a opinião pública que considera Chico Mendes um mártir da Amazônia, o ministro permaneceu firme em sua posição.  Em entrevista ao jornalista Bernardo de Mello Franco, afirmou: “O pessoal do agro, que conhece a região, diz que ele era grileiro.” Talvez tenha sido o mesmo pessoal que informou ao ministro que Chico Mendes “usava os seringueiros para se beneficiar”.  É difícil imaginar que benefício extraiu o seringueiro de sua atuação em favor do meio ambiente, que o fez enfrentar os latifundiários poderosos da região e acabou causando sua morte violenta. Deixou, porém, um legado que até hoje inspira a luta pelo meio ambiente no Brasil e internacionalmente. Graças a Deus, em seguida à entrevista do ministro, o vice-presidente Hamilton Mourão reafirmou a importância de Chico Mendes, declarando que ele é parte da história do Brasil.

Desconstruir a memória de um líder, de um mártir, é matá-lo pela segunda vez. Assim parece o pessoal do agro estar fazendo com a memória de Chico Mendes.  Assim outros fazem igualmente com a morte da irmã Dorothy Stang, religiosa católica assassinada enquanto ia a uma reunião com a Bíblia na mão. Seria a Irmã Dorothy, cuja morte completa agora 12 anos, alguém que se beneficiava dos seringueiros e do povo da floresta?

À pergunta do ministro sobre que diferença faz quem é Chico Mendes nesse momento, portanto, a resposta parece ser: faz toda a diferença.  A história do Brasil seria outra se não houvesse Chico Mendes.  O panorama da Amazônia brasileira seria muito mais frágil sem sua atuação corajosa e o movimento que criou.

Assim também, enquanto a Igreja Católica prepara o sínodo da Amazônia a ser realizado no Vaticano no próximo mês de outubro, o testemunho de Dorothy Stang e Chico Mendes faz toda a diferença.  Por quê?  Porque dão a carne e o sangue às palavras da encíclica Laudato Si, do Papa Francisco, que afirma ser a luta pela natureza e a criação inseparável da luta pela justiça e os direitos humanos.

Quem entende isso faz a diferença.  Esperemos que o ministro, após sua primeira viagem à Amazônia, se sinta mais reconciliado com essas grandes figuras que, desde o seu lugar aparentemente pequeno e insignificante, vão virando a história em outra direção e deixando atrás de si o rastro luminoso da sacralidade de todas as formas de vida. 

Maria Clara Bingemer
é teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio. É autora de diversos livros, entre eles, ¿Un rostro para Dios?, de 2008, e A globalização e os jesuítas, de 2007. Escreveu também vários artigos no campo da Teologia.
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