28 Fev 2019 | domtotal.com

Carnaval do silêncio

Motivos não faltam para que as baterias silenciem, deixando tocar apenas os surdos num tom abafado que traduza a indignação.

Mas como se alegrar diante da morte anunciada? Como sambar sabendo da dor de tanta gente?
Mas como se alegrar diante da morte anunciada? Como sambar sabendo da dor de tanta gente? (Pixabay)

Por Jorge Fernando dos Santos

Este deveria ser o Carnaval do silêncio. Silêncio de luto e protesto pelas mortes ocorridas em Brumadinho e Mariana – sem falar no risco de novas tragédias em Congonhas, Barão de Cocais, Macacos e na mineração que volta a ameaçar a Serra da Piedade.

Milhões de foliões em silêncio. Vestidos de preto, sentados no asfalto. Motivos não faltam para que as baterias silenciem, deixando tocar apenas os surdos num tom abafado que traduza a indignação. Em lugar do samba-enredo, o silêncio dos clarins e das bocas. Silêncio ensurdecedor!

Silêncio, já que o nosso grito quase nunca incomoda os ouvidos moucos das autoridades. Silêncio também pelas vítimas da violência que assola o país. Em memória do Museu Nacional e dos dez garotos que morreram queimados no alojamento do Flamengo.

Um silêncio tão grande que possa fazer assassinos e corruptos tremerem nas bases, sem saber direito o que pode lhes acontecer diante da ira de um povo que não aceita mais injustiça e impunidade.

Silêncio em protesto contra as mordomias dos três poderes, contra a desfaçatez dos ministros do Supremo Tribunal Federal e de lideranças partidárias. Todo mundo de luto e vergonha pela República de bananas podres.

Um silêncio a exigir respostas para perguntas que não querem se calar. Quem matou o ex-prefeito Celso Daniel de Santo André? Quem matou a vereadora Marielle Franco do Rio de Janeiro? Quem mandou esfaquear o candidato Jair Bolsonaro, em Juiz de Fora?

Mas não! Em vez de fazer silêncio, a massa sai às ruas para beber e sambar. Para celebrar não sei o quê – talvez o pouco de ilusão que ainda nos resta. Ou para esquecer tanta desgraça, alienando-se das tragédias que pairam sobre nossas cabeças feito um cepo invisível.

Nada contra o Carnaval! Nada contra as escolas e os blocos. Nada contra a passista e o mestre-sala, o Pierrô, a Colombina e o Arlequim. Nada contra a alegria desse povo, que uma vez por ano transforma a vida em fantasia. Mas como se alegrar diante da morte anunciada? Como sambar sabendo da dor de tanta gente?

O Rio está falido. Minas está falida. O Brasil está quase falido. A moral e os bons costumes, também. A esperança resta por um fio. No entanto, sobram recursos públicos para a ceva e o circo. Recursos da saúde, da educação e da segurança que nos falta.

“Carnaval, desengano / Deixei a dor em casa me esperando”, cantou o jovem poeta Chico Buarque. Mas já que a festa não pode parar, então que se faça um minuto de silêncio, como propôs o saudoso Monsueto num samba que marcou época: “Um minuto de silêncio / Pelo cabrito que morreu / Pois se hoje a gente samba / É que o couro ele nos deu”.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Ed. Atual), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio da APCA em 2015; e A Turma da Savassi (Quixote).
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas