08 Mar 2019 | domtotal.com

O efeito contracionista da reforma da previdência

O orçamento da previdência é revertido na produção, o que gera crescimento, já que proporciona um efeito expansionista na economia real.

Um efeito perverso do capitalismo é a financeirização da economia.
Um efeito perverso do capitalismo é a financeirização da economia. (Agência Brasil)

Por Marcel Farah

Passou o carnaval. Este ano, marcado pela morte do neto do Lula, de apenas 7 anos, a saída da prisão para o velório, e finalizado pela escandalosa postagem de Bolsonaro de cenas sexuais incomuns, até mesmo para um carnaval pornô, mas, que, segundo o presidente, tornaram-se normais nos festejados blocos de carnaval. A festa mais autônoma, popular e criativa do Brasil eleva os ânimos com um debate rebaixado. Voltemos ao que interessa, a reforma da previdência.

Concordando ou não com o pedido imediato de impeachment de Bolsonaro por comportamento impróprio para o cargo que ocupa, o importante é que não sejamos pegos com as falácias de que esta reforma melhorará a economia e resguardará o futuro, melhorando o presente.

Discuti, nos artigos anteriores, o fato do deficit da previdência basear-se em uma interpretação contábil interessada em desviar recursos da Seguridade Social para sanar o deficit fiscal do Estado. Dando continuidade, levantei o rombo realmente existente, já que grandes empresas brasileiras são devedoras de valores da ordem de R$450 bilhões de reais para os cofres públicos. Precisamos chegar a uma alternativa para suprir o deficit público que não puna trabalhadores e trabalhadoras. É possível equilibrar as contas cobrando da parte de cima da piramide social, sim, a isso nos dedicamos nesta série sobre a previdência social.

Um efeito perverso do capitalismo é a financeirização da economia. O capital financeiro e, portanto, improdutivo, tem se tornado predominante em todos os setores da economia, que preferem “investir na bolsa” ao invés de produzir bens de consumo. O efeito disso é a concentração de renda nas mãos de quem tem como investir no mercado financeiro e a exclusão cada vez maior de quem não tem dinheiro, senão, para comprar comida, transporte, roupas etc. Ou seja, a maioria do público da previdência social, pessoas que vivem de seu trabalho e que no momento que não podem mais trabalhar precisam da aposentadoria para viver, gasta toda sua renda em consumo. Não sobra renda para investir. O orçamento da previdência, portanto, é revertido na produção, o que gera crescimento, já que proporciona um efeito expansionista na economia real.

Por essas e outras, a previdência é uma baita política de distribuição de renda, contrária à tendência de concentração do capital financeiro, o que os coloca em rota de colisão.

Nesse sentido, ao atingir a meta do governo de retirar 1 trilhão de reais da economia, via reforma da previdência, o efeito contracionista será temerário, e provavelmente vai atingir a produção e a geração de emprego, como alertou o economista Marcio Pochmann em twitter de 28 de fevereiro de 2019.

Os intuitos reformadores, portanto, buscam retirar da Seguridade Social para permitir que o governo dê o destino que quiser. Mas a seguridade já envolve saúde, assistência e previdência, se esse dinheiro não for reinvestido em educação, ou outra política para gerar emprego e redistribuição de renda, que não têm sido consideradas prioridade pelo atual governo, por certo, a recessão, o desemprego e a desigualdade aumentarão. Logo, reformar a previdência não será solução para o deficit fiscal, e muito menos para as questões sociais.

Marcel Farah
Educador Popular
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas