11 Abr 2019 | domtotal.com

O moscovita e o baiano

A relação dos intelectuais com as ideologias sempre foi uma faca de dois gumes.

Dostoiévski execrou o socialismo na Rússia do seu tempo; Jorge Amado se tornaria um dos autores mais engajados do Brasil.
Dostoiévski execrou o socialismo na Rússia do seu tempo; Jorge Amado se tornaria um dos autores mais engajados do Brasil. (Reprodução)

Por Jorge Fernando dos Santos

Em todo o mundo, a relação dos intelectuais com as ideologias sempre foi uma faca de dois gumes. Dois livros recentes nos levam a refletir sobre o tema. Um deles é “Dostoiévski: Um escritor em seu tempo”, de Joseph Frank. O outro, “Jorge Amado – Uma biografia”, de Joselia Aguiar.

Incomparáveis sob vários aspectos de ordem estético-literária, os dois autores divergiram também sob o ponto de vista ideológico. Dostoiévski execrou o socialismo na Rússia do seu tempo; Jorge Amado se tornaria um dos autores mais engajados do Brasil, no século XX.

O moscovita Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (1821-1881) estudou engenharia na Academia Militar de São Petersburgo. Mesmo sendo cristão ortodoxo, frequentou o Círculo Petrashevski e acabou sendo preso. Escapou do fuzilamento na última hora e foi enviado para a Sibéria por conspiração.

Após quatro anos de trabalhos forçados, o escritor concluiu que o niilismo e o socialismo são caminhos equivocados e que somente o Cristo pode ser um ideal de perfeição. Tornou-se um autor genial, focado nos grandes conflitos da alma humana. Sua obra influenciaria Freud na psicanálise.

Dostoiévski levou uma vida pobre e atormentada, às voltas com a epilepsia e o vício no jogo. Apesar disso, escreveu obras-primas universais, como “Crime e castigo”, “Os irmãos Karamazov” e “Os demônios” – no qual critica os socialistas que antecederam o marxismo.

Numa carta de meados de 1850, o gênio russo afirmou: “O socialismo corroeu toda uma geração. Precisamos lutar, porque tudo foi infectado. Minha ideia é que o socialismo e o cristianismo são antíteses (...)”.

Nacionalista convicto, ele acreditava que o destino da Rússia seria converter o mundo ao verdadeiro cristianismo. Ironicamente, não poderia imaginar que a revolução comunista de 1917 seria o ponto de partida de um regime totalitário e anticristão.

Militância e decepção

O baiano Jorge Amado (1912-2001) foi um dos autores mais populares da literatura brasileira. Traduzida para vários idiomas e com milhões de exemplares vendidos, sua obra foi adaptada para teatro, cinema e televisão. Contudo, pouca gente conhece detalhes de sua militância política.

Filho de um coronel do cacau, Jorge revelou muito cedo o talento literário. Estudante na Cidade da Bahia, ele integrou o grupo apelidado de Academia dos Rebeldes. Foi aluno da Faculdade de Direito do Rio de Janeiro e se filiou ao Partido Comunista, tornando-se um militante ardoroso.

Aos 22 anos, publicou seu primeiro romance, “No país do carnaval”. Logo depois lançaria “Cacau”, que seria queimado em praça pública durante o Estado Novo. Fiel aos ideais marxistas, dedicou-se cada vez mais à causa revolucionária. Ajudou a organizar o 1º Congresso Brasileiro de Escritores, em 1942, e colaborou em várias publicações.

Se algumas vezes a militância atrasou sua produção literária, também facilitou a publicação de seus livros lá fora, principalmente atrás da cortina de ferro. A exemplo dos camaradas, Jorge se calou frente ao pacto entre Hitler e Stálin que permitiria a invasão da Polônia, em 1939.

Fiel ao Realismo Socialista, publicou “O cavaleiro da esperança”, biografia de Luís Carlos Prestes. Isso aumentou o seu prestígio na URSS, levando-o a receber o Prêmio Stálin. Seguiria a mesma receita ao escrever “Seara vermelha” e “Os subterrâneos da liberdade”. 

Ex-deputado na Constituinte de 1946, no final da era stalinista Jorge tomou conhecimento da perseguição soviética a vários escritores do Leste Europeu – alguns dos quais seus amigos. Calcula-se que mais de 2 mil deles tenham sido presos, fuzilados ou enviados para a Sibéria acusados de traição.

Abalado diante das revelações, Jorge Amado afastou-se da militância, passando a se dedicar cada vez mais à literatura. Livre das amarras partidárias e membro da Academia Brasileira de Letras, ele finalmente se consagrou como grande autor de best-sellers, entre os quais “Dona flor e seus dois maridos”, “Gabriela - cravo e canela” e “Tieta do agreste”.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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