11 Abr 2019 | domtotal.com

Mariana e Brumadinho um novo sentido para o martírio

Um caminhou para a cruz o outro para a forca. Um disse 'Pai, em tuas mãos entrego meu espírito'. O outro disse: 'Se 10 vidas eu tivesse 10 vidas eu daria'.

Levantar a voz contra uma empresa mineradora ou muitas delas que ceifam vidas e prejudicam o meio ambiente trazendo severos prejuízos e danos ao povo.
Levantar a voz contra uma empresa mineradora ou muitas delas que ceifam vidas e prejudicam o meio ambiente trazendo severos prejuízos e danos ao povo. (AFP)

Por Wagner Dias Ferreira

Este ano a festa católica da Páscoa coincidiu com o dia do mártir da Inconfidência Mineira. Não são raras as explicações de que a imagem imortalizada de Tiradentes seja muito semelhante às imagens convencionadas de Jesus no caminho do calvário. Um caminhou para a cruz o outro para a forca. Um disse “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”. O outro disse: “Se 10 vidas eu tivesse 10 vidas eu daria”.

A mineiridade segue mitificando e mistificando os dois momentos. Tê-los no mesmo dia do ano é uma oportunidade para a reflexão.

Jesus foi crucificado porque suas palavras, que buscavam a restauração de uma relação original com Deus, aquela do paraíso antes do pecado, ameaçaram o poder dos sacerdotes, escribas e fariseus da época, que o próprio Jesus chamou de “raça de víboras” ou “sepúlcros caiados”. Tiradentes ameaçou a coroa portuguesa, porque pretendeu com seus companheiros que a riqueza do outro fosse aproveitada integralmente no solo brasileiro, opondo-se à exploração do quinto.

A coincidência desses momentos e sua significação conclamam as pessoas dos dias atuais a levantarem suas vozes contra as injustiças sociais.

Levantar a voz contra uma empresa mineradora ou muitas delas que ceifam vidas e prejudicam o meio ambiente trazendo severos prejuízos e danos ao povo. Levantar a voz contra governantes passivos que toleram e até são coniventes com danos ambientais e prejuízos a população sem as devidas reparações.

A Constituição diz que todos são iguais perante a lei, em consonância com proclamações internacionais que visam afastar do tecido social práticas que possam redundar na repetição do holocausto nazista. Seja para evitar o sofrimento para determinados grupos sociais ou seja para impedir que outros fechem seus olhos se negando a enxergar a realidade como ela se apresenta.

Para que o familiar da vítima dos crimes de Mariana (Bento Rodrigues) e Brumadinho (Córrego do Feijão) sejam iguais aos diretores e acionistas da empresa mineradora, a lei – Estado Poder Legislativo, o Estado Poder Executivo, o Estado Poder Judiciário e todos os segmentos sociais devem promover ações diretas na busca de compensar a desigualdade que existe no mundo real.

No mundo capitalista, um valor monetário provavelmente é declarado como solução para este problema. Mas a compensação por uma vida implica muito mais do que a entrega rápida de uma quantia financeira. É preciso buscar mecanismos para manter vivos aqueles ideais e sentimentos das pessoas que morreram.

No filme “O Resgate do Soldado Ryan”, ao final, o soldado Ryan está em frente ao túmulo do comandante do pelotão que o resgatou durante a Segunda Guerra Mundial, mostrando ali sua família, e declarando que a vida que levou é o que ele podia oferecer em honra daqueles que deram a vida para que ele vivesse.

Após eventos como aqueles de Mariana e Brumadinho, talvez fosse importante a sociedade começar a pensar em outros mecanismos de compensação, sim mantendo o financeiro, mas buscando meios que demonstrem que algo mais foi feito em honra daquelas almas. De forma que não sejam elas relegadas ao mero esquecimento.

Jesus é considerado ressurrecto na Páscoa. Por isso seguem vivos com ele seus ensinamentos e suas práticas. Tiradentes é considerado o Mártir da Inconfidência, por isso, segue como uma bússola sempre levantando os “mineiros” contra toda prática opressora e exploratória. Mariana e Brumadinho devem ser novos Mártires demarcando novo tempo, novas regulações e novas práticas.

Wagner Dias Ferreira
Advogado e membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB/MG
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