12 Abr 2019 | domtotal.com

Qual a função social da universidade?

As primeiras faculdades surgidas no país, de medicina e direito serviam à formação dos filhos das elites.

Por anos, a luta estudantil ensinou à universidade que o caminho da produção de saberes, com validade para a sociedade como um todo, depende da indissociabilidade entre o ensino, a pesquisa e a extensão.
Por anos, a luta estudantil ensinou à universidade que o caminho da produção de saberes, com validade para a sociedade como um todo, depende da indissociabilidade entre o ensino, a pesquisa e a extensão. (Pixabay)

Por Marcel Farah

O Brasil é um daqueles países construídos a partir dos escombros da Colonização. Este processo deixou traços coloniais na nossa personalidade coletiva. Somos fruto da exploração, como rejeitos industriais, mas não nos reconhecemos como tal. Não nos solidarizamos com países de histórias semelhantes, e almejamos espelhar o colonizador, seja o ibérico, seja o britânico, seja o norte-americano.

Lugar de privilégio

Neste contexto criou-se a universidade brasileira, historicamente um lugar de privilégio. As primeiras faculdades surgidas no país, de medicina e direito serviam à formação dos filhos das elites, em substituição às universidades estrangeiras como a de Coimbra. Contudo eram praticamente um réplica colonial daquela. Até hoje, pelo sistema de seleção escolar, a elitização é traço característico da universidade brasileira.

A luta por uma universidade popular

A reforma universitária de Córdoba de 1918, marco da construção da universidade latino-americana, autônoma e voltada para a sociedade, demorou a chegar no país. Na década de 1960, a proposta da Universidade de Brasília, partindo das reflexões de Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, representou grande avanço para uma academia conectada com a realidade brasileira. Posteriormente, com a reforma universitária da ditadura militar, o redesenho institucional imposto pelos milicos redobrou a aposta em uma universidade moderna, porém conservadora.

Por anos, a luta estudantil ensinou à universidade que o caminho da produção de saberes, com validade para a sociedade como um todo, depende da indissociabilidade entre o ensino, a pesquisa e a extensão. Os centros de cultura popular da UNE dos anos 1960 e a reconstrução da entidade, pós ditadura, revelaram a importância dos movimentos sociais na construção de uma educação pública para todos e, principalmente, transformadora da realidade.

A ameaça da mercantilização

Contudo, enfrentamos até hoje problemas do início do século passado. Há uma tensão permanente pela total mercantilização da educação superior, setor em que predominam as universidades privadas. Estas têm se transformado em grandes empresas educacionais. O lucro é a prioridade institucional, enquanto a educação é secundarizada, e às vezes até tratada como custo.

As universidades que mais produzem pesquisa são públicas. Nestas, há uma permanente tensão para sua associação a empresas ou grupos privados. Nas ciências do campo, na região centro oeste,  o agronegócio vive a cobiçar a pesquisa universitária, direcionando sua pauta e blindando o modelo de críticas e dos interesses populares. Exemplo, o atlas do agronegócio de 2018, pesquisa que associa o agronegócio à degradação do cerrado, é uma pesquisa estrangeira, não nacional . Logo, mesmo nas universidades públicas, o conhecimento produzido por vezes está “desligado das necessidades populares cotidianas”.

Os cursos de direito, que mais têm estudantes no país, ainda formam as elites da burocracia estatal, a partir das elites sociais. Ou seja, tendem a perpetuar o poder nas mãos do poderosos, a partir de uma perspectiva que reduz o Direito à Lei, e induz à conservação dos status quo, com poucas exceções.

Armas ideológicas

Mesmo assim, por mais inusitado que seja, a universidade foi eleita como um dos principais alvos dos grupos conservadores nos tempos recentes, colocando a autonomia universitária em risco. Sem autonomia não se produz conhecimento. Afinal, a produção científica não pode ser dirigida de fora para dentro, sob o risco de somente servir a uma parte da sociedade, ou servir para justificar as ações dos grupos que a dirigem, no caso, o Estado.

Vivemos aquela situação denunciada por Paulo Freire, segundo o qual, o discurso mais ideológico é exatamente aquele se diz não ideológico.

Sob a bandeira da “escola sem partido” e a acusação de que universidades formam “militantes”, a guerra ideológica tem permitido a retomada do desmonte da universidade pública, pior do que o que vivemos na década de 1990. Esse processo atinge em cheio atividades menos prestigiadas, como a extensão universitária, além do próprio princípio da autonomia universitária.

Por uma universidade ou pluriversidade popular?

A questão central, a meu ver, sobre a educação superior brasileira, é, qual a função social da universidade? Formar mão-de-obra qualificada e pesquisas para o mercado e o Estado, ou massificar/difundir saberes válidos (entre científicos e populares), produzir saberes científicos e pautar-se pelas demandas populares e pelas questões sociais?

Há uma função social da universidade para além do ensino, para além da pesquisa. O fortalecimento da extensão, tende a equilibrar o tripé do artigo 207 da Constituição, mas também não é suficiente.

Para ser uma universidade para toda a sociedade, pois, é preciso captar a complexidade da pluralidade social, enfrentar privilégios, considerar diversas visões de mundo, buscar a transformação social, e fazer tudo isso daqui, da América-Latina colonial. Voltamos a uma questão síntese, educação para quem?

1 MOITA, Filomena Maria Gonçalves da Silva Cordeiro  and  ANDRADE, Fernando Cézar Bezerra de. Ensino-pesquisa-extensão: um exercício de indissociabilidade na pós-graduação. Rev. Bras. Educ. [online]. 2009, vol.14, n.41, pp.269-280. ISSN 1413-2478.  http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782009000200006. Página 270

2 https://www.dw.com/pt-br/o-lado-nada-pop-do-agroneg%C3%B3cio/a-45379584

3 MOITA, Filomena Maria Gonçalves da Silva Cordeiro and  ANDRADE, Fernando Cézar Bezerra de. Ensino-pesquisa-extensão: um exercício de indissociabilidade na pós-graduação. Rev. Bras. Educ. [online]. 2009, vol.14, n.41, pp.269-280. ISSN 1413-2478.  http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782009000200006. Página 271.

Marcel Farah
Educador Popular
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas