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Outro Brasil

18/05/2016 07:12:59
Mendes da Rocha: reconhecimento internacional.
Mendes da Rocha: reconhecimento internacional.

Por Carlos Ávila

Em meio ao baixo-astral político-econômico, chegam sinais positivos do outro Brasil que existe sob o “podbre Brasil” (expressão de D. Pignatari) apenas voltado para ocupar os espaços do poder, e não para promover mudanças – com novas ideias e projetos sólidos.

Esse outro Brasil, hoje internacionalizado, está nas artes e na arquitetura – na invenção de formas de alguns dos nossos maiores criadores; está em mostras nos EUA e na Europa; e num prêmio da Bienal de Veneza.

Tarsila do Amaral (1886/1973) e Burle Marx (1909/1994) em grandes exposições nos EUA; Volpi (1896/1988) numa mostra em Londres. E mais: Paulo Mendes da Rocha, aos 87 anos – vivíssimo e atuante –, premiado na 15º Bienal de Arquitetura de Veneza. Antídotos ao anticlímax reinante no país e à sua imagem desgastada pela crise.

Tarsila – a primeira dama da nossa pintura, aquela que “é nas artes plásticas aquilo que Oswald e Mário representam na literatura”, conforme a crítica Aracy Amaral – ganha agora uma ampla retrospectiva nos EUA, que começa em outubro no Art Institute of Chicago e segue depois para o MoMA de Nova York; segundo informação na imprensa, são 100 obras da nossa “caipirinha vestida por Poiret” (Oswald), incluindo telas importantes como “Antropofagia” e “A negra” – ou seja, destacando a sua fase antropofágica (com elementos cubistas/surrealistas transfigurados numa visualidade brasileira).

A obra de Burle Marx – 140 peças, entre pinturas, esculturas, projetos etc. – já está em exposição em NY, no Jewish Museum, e segue, em 2017, para o Deutsche Bank Kunsthalle, em Berlim. Com o título “Roberto Burle Marx, Brazilian modernist”, a abrangente mostra traz o trabalho múltiplo do artista/paisagista – defensor do meio ambiente e ecologista avant la lettre, que sempre chamou a atenção para a destruição da nossa natureza.

E Volpi ganha em junho uma mostra em Londres, na Galeria Cecilia Brunson Projects; serão 32 pinturas, das décadas de 1940 a 80. Mestre da pintura à têmpera, refinado colorista, Volpi foi da paisagem às formas construtivas, com suas “bandeirinhas” e detalhes de fachada – “um puro jogo plástico de uma geometria extremamente sensível”, nas palavras de Mário Pedrosa.

Mas o grande júbilo mesmo é ver nas páginas dos três principais jornais do país (“Folha”, “Estadão” e “Globo”) matérias dando conta do prêmio que receberá o arquiteto Paulo Mendes da Rocha: o Leão de Ouro, na 15ª Mostra Internacional de Arquitetura da Bienal de Veneza. Salve!

Já tendo recebido anteriormente o Pritzker (considerado o Nobel da arquitetura), Mendes da Rocha é o primeiro brasileiro a ganhar o Leão de Ouro. Este capixaba radicado em São Paulo é hoje, sem dúvida, o nosso maior arquiteto vivo – responsável pelo Museu da Escultura e pela reforma da Pinacoteca em SP; o Museu Nacional dos Coches, em Lisboa, e dois outros museus em Vitória e Santos são seus projetos mais recentes.

Criativo, íntegro e não conformista Mendes da Rocha disse em entrevista que “nenhum arquiteto pode estar satisfeito. Temos que trabalhar para sair do atraso em todos os sentidos dessa palavra”. É, de fato, outro Brasil se manifestando e se afirmando – na contramão da mesmice e da mediocridade atuais.

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