Blog CULTURA

Uma crítica arguta

01/06/2016 06:00:13
Lucia Miguel Pereira: culta e bem informada.
Lucia Miguel Pereira: culta e bem informada.

Por Carlos Ávila

Os periódicos impressos vão desaparecendo e, com eles, as seções ou cadernos de cultura – consequentemente desaparece também a crítica literária em artigos para jornal. Com certeza, um empobrecimento a mais nestes nossos tempos internéticos de textos breves e leves. O que sobrou daquela crítica, nos impressos ainda existentes, está nas resenhas, de espaço restrito e sem maior aprofundamento de questões.

Em meados do século 20 a crítica tinha forte presença nos jornais. Foi nesse período que Lucia Miguel Pereira (1901/1959) teve uma atuação intensa e influente na nossa mídia impressa – tradutora de Proust e biógrafa de Machado de Assis, Lúcia se tornou uma referência no ensaísmo feminino: foi uma escritora-crítica, não acadêmica, militante dos cadernos culturais. Mineira de Barbacena, Lucia se radicou no Rio, onde morreu precocemente num desastre aéreo.

Os artigos dispersos de Lucia – mais de duas centenas em periódicos cariocas e paulistas, como o “Correio da Manhã” e “O Estado de São Paulo” – vêm sendo reunidos, nos últimos anos, em volumes como “A leitora e seus personagens” e “Escritos da maturidade”. No ano passado saiu mais um: “O século de Camus” (Ed. Graphia), com textos publicados de 1947 a 55 – introdução, seleção e notas são da pesquisadora Luciana Viégas.

Impressiona em Lucia a cultura e a carga de informação (era ligadíssima, sempre up to date) – escreveu não só sobre lançamentos importantes da literatura brasileira da época (“Memórias do Cárcere”, por ex.), como também a respeito de livros então recém-publicados na Europa e nos EUA, que lia diretamente em francês e inglês (a maioria deles demoraria ainda a ser traduzida entre nós). Com argúcia e síntese textual, dava aos leitores análises e interpretações de autores como Camus, Gide, Sartre, Genet, Kafka, Proust, Eliot, Hemingway, Virgínia Woolf etc.

Lucia, em geral, discorre sobre ficção (pouco trata de poesia: critica o livro de Sartre sobre Baudelaire, fala no “teatro em versos” de Eliot e discute o prêmio Bollingen ganho por Pound com seus “Pisan Cantos”). Mas aborda também a própria crítica (Sílvio Romero, Croce); reflete sobre a permanência e a renovação do romance; comenta diários, biografias e correspondências; e ainda levanta questões sobre tradução.

Um texto singular entre os artigos jornalísticos de Lucia nesta coletânea é, sem dúvida, “As mulheres na literatura brasileira”, uma espécie de mini-ensaio, publicado em 49, na revista “Anhembi” – foi incluído no volume, segundo a organizadora, “pela perspectiva pioneira na abordagem das questões de gênero”.

No artigo, Lucia estuda personagens femininas ficcionais ou não; seu texto poderia ser o embrião de um trabalho mais amplo. Nele declara sua irritação quando ouve alguém dizer “escreve como homem”, quando “qualquer mulher revela outros dons além da sensibilidade e da graça, por todos tidos como femininos”.

Inegável a grande contribuição de Lucia – seus artigos, ainda atuais e com abordagens originais, reunidos neste bem-vindo volume, confirmam isso (e chamam atenção para a ausência de crítica literária analítica e penetrante como a dela nos dias de hoje).

Comentários