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Tentativa de esgotamento

13/07/2016 06:00:57
Perec: descrevendo o que em geral não se nota.
Perec: descrevendo o que em geral não se nota.

Por Carlos Ávila

Sob o signo da observação-obsessão, o escritor francês Georges Perec (1936/1982) – um experimentalista que integrou a famosa OuLiPo, Oficina de Literatura Potencial, criada em 1961 por Raymond Queneau – escreveu um pequeno, mas provocante, livro conceitual: “Tentative d’épuisement d’un lieu parisien”. Ou “Tentativa de esgotamento de um local parisiense”, na tradução brasileira de Ivo Barroso (SP, Ed. G. Gili, 2016).

Livro conceitual (ou ainda livro-lista), “Tentativa” é o radical resultado de três dias seguidos que Perec passou instalado na Place Saint-Sulpice, em Paris, anotando tudo o que via: as ruas (com seus acasos-acontecimentos); pessoas e carros; animais; nuvens; “o passar do tempo”. Insignificantes & insignificados (a praça está localizada no 6º arrondissement, onde fica a igreja de Saint-Sulpice; no seu centro há uma fonte).

Há muitas coisas na praça, segundo Perec, várias delas já descritas e fotografadas à exaustão (uma câmara municipal, três cafés, um cinema, a igreja, um hotel, parada de ônibus etc.); sua proposta foi (d)escrever “aquilo que em geral não se nota, o que não tem importância: o que acontece quando nada acontece”.

Dividido em três partes – Dia 1; Dia 2; Dia 3 – o volume lançado por Perec em 1975, traz data, hora, local e tempo das anotações; às vezes, um ou outro subtítulo tipo “trajetória” ou “cores”. São apenas palavras ou frases soltas. Antinarrativa. “Esboço de inventário de algumas das coisas estritamente visíveis”. Instantâneos.

“Várias dezenas, várias centenas de ações simultâneas, de microacontecimentos, cada um dos quais implicando posturas, atos motores, dispêndios de energia específicos” – grafa Perec no seu livro-lista, em 18 de outubro de 1974, às 12.40, no Café de La Mairie. O Perec voyeur segue a antitradição do flâneur Baudelaire na aparentemente eterna “festa móvel” chamada Paris.

Para o arquiteto Ricardo Luis Silva – professor de teoria e estética da cidade do Senac/SP –, que assina o prefácio, “Perec constata, já nos anos 1970, nossa ignorância em ver a Cidade. Condenamos nosso ato de ver ao puro condicionamento mercadológico e espetacular. Vemos o mundo com olhos objetivos, mecanizados, procuramos e decodificamos apenas o funcional e utilitário. Fica evidente a consequente relação que temos com a construção da Cidade. Um olhar utilitário e mercadológico constrói Cidades do mesmo tipo”.

O pequeno livro de Perec traz à lembrança outra época e outro tipo de registro (não verbal), também em Paris. No livro “Um dia com Picasso”, o pesquisador Billy Klüver – um dos fundadores da Experiments in Art and Technology (EAT) e Ph. D. em engenharia elétrica – reúne e analisa cientificamente 29 fotografias tiradas pelo escritor Jean Cocteau, em 1916, numa única tarde (entre sol e sombra) em Montparnasse, de uma reunião de amigos como Erik Satie, Picasso, Max Jacob, Modigliani e outros.

Já Perec registra três dias – mas sozinho, em cafés e tabacarias, com caneta e caderno nas mãos – do grande movimento de anônimos, veículos etc. na Praça Saint-Sulpice; seu olhar se entranha no caos urbano e produz um estranho livro-lista – “uma narrativa que não tem regra nem cadência”.

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