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Na contramão

14/09/2016 06:00:39
Mário Azevedo: intensa produção e reflexão cuidadosa.
Mário Azevedo: intensa produção e reflexão cuidadosa.

Por Carlos Ávila

O artista mineiro Mário Azevedo vem desenvolvendo, há décadas, um instigante trabalho plástico de raiz construtiva, que inclui experimentações cromáticas e formais, dialogando ainda com outras linguagens, tanto visuais como verbais (a poesia de Murilo Mendes, por ex.). Em 2015, na mostra “Entreposto”, no Centro Cultural da UFMG, em BH, apresentou um amplo panorama de suas criações, reunindo desenhos, pinturas, colagens, tiras, livros de artista e objetos, produzidos de 2006 a 2012; na ocasião, um catálogo registrando a exposição também foi lançado.

Azevedo, 58 anos, tem Graduação e Mestrado na Escola de Belas Artes/UFMG, e Doutorado no IA/UFRGS – com estágio na Université de Picardie (Amiens/França); atualmente faz Pós-Doutorado na EBA/UFRJ. O artista, que vive e trabalha em BH, desde 1961 – mas já morou também no Rio de Janeiro, em Porto Alegre e em Paris –, conversou com o colunista sobre seu trabalho, Inhotim e a produção contemporânea.

Seu trabalho plástico inclui desenho, pintura, gravura etc. – até mesmo o diminuto formato do caderno. Como é estar na “contramão” da maioria da arte produzida hoje (instalações, performances, criações multimídia, enfim, formatos maiores e mais ambiciosos)?

Além do que você enumera, também faço fotografias, algumas ocupações espaciais, livros/cadernos de artista e edições/publicações, desde 1980. Encaminho a minha produção no formato que ela solicita, pois isso tem uma correspondência implícita com a linguagem que a obra conduz. Acho que, pela sua própria natureza, o meu recado não caberia nesses outros formatos que você cita. Quanto à contramão, me sinto muito bem assim; para mim, enquanto artista, seria estranho estar sempre na mão, direitinho. Sigo trabalhando, sob uma reflexão mais cuidadosa e dou o meu melhor.

Sua obra ainda é pouco conhecida e divulgada, apesar da sua já longa trajetória: a que atribui isso? Morar e produzir aqui em Belo Horizonte ajuda ou atrapalha?

Já fiz mais de 30 exposições individuais, em BH, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Goiânia, além de participar de Salões de Arte e grandes mostras sob curadoria, no Brasil e no exterior, sendo premiado diversas vezes; minhas obras ainda estão no acervo de importantes museus do país e de várias coleções particulares. Trabalho na EBA/UFMG desde 1993. Então, sobre o sucesso midiático e seus ecos (essa performance mundana), realmente não há como te responder, pois aqui, seriam apenas conjecturas. Mas posso dizer que não é nada fácil ser artista e professor/pesquisador de arte aqui, nessa cidade ainda pequena em muitos aspectos. Minas Gerais – definitivamente – não tem o devido respeito pela sua produção artística e a nossa história ainda não foi (e nem vem sendo) contada conforme sua estatura.

Recentemente você organizou um amplo livro-catálogo sobre Roberto Vieira (lançado no âmbito de uma exposição de Vieira, no Palácio das Artes, em BH). Além dele, que outros artistas ou obras lhe chamam a atenção atualmente no país?

Ele me convidou – juntamente com a designer Glória Campos – para elaborar e editar esse panorama sobre os seus 50 anos de trabalho. Foi uma verdadeira empreitada, mas fiquei muito contente com o resultado. O trabalho dele é fundamental para a arte mineira, brasileira. É difícil apontar, entre nós, apenas alguns artistas com um bom trabalho. Para destacar uma pintora próxima (sobre cuja obra – singular – também pensamos em fazer um livro), cito a Fátima Pena, por exemplo. Mas tem muito mais gente e obras de excelente qualidade por aqui e por todo o país.

Inhotim foi positivo também para a arte produzida por aqui? Ou é apenas uma “ilha” em relação à produção local (não faltam pavilhões para essa produção – como, por ex., a do próprio Roberto Vieira)?

Antes de tudo, é preciso dizer que aquele acervo – artístico, arquitetural e botânico –, reunido naquele parque, é realmente uma maravilha. Mas acho meio esquizofrênico querer conversar com o mundo – buscando um entendimento global – e desconsiderar o local cultural de onde se fala.

O que pensa das pesadas críticas de Ferreira Gullar à arte contemporânea em geral?

Ele parece meio surtado, não é? Prefiro me lembrar de sua atuação – como poeta e teórico – no Neoconcretismo, quando escreveu textos fundamentais e formulou ideias importantes até hoje. É claro que há uma diversidade de gostos e intenções, além do estranhamento com as expressões artísticas mais recentes. Mas quem gosta de arte mesmo, precisa ser aberto e não permanecer blindado. Será que ele não entende isso? É ele, o crítico, quem perde, com esse olhar leviano para a produção contemporânea, pois as coisas estão em movimento e mutação constantes.

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