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O poeta da prosa

02/11/2016 06:00:25
Guimarães Rosa: erudição e invenção de linguagem.
Guimarães Rosa: erudição e invenção de linguagem.

Por Carlos Ávila

Em 2016 comemoram-se 70 anos de publicação de “Sagarana”, lançado em 1946, e 60 anos de “Grande Sertão: Veredas” e “Corpo de Baile” – ambos publicados em 1956 (aliás, no mesmo ano em que era lançado o concretismo no Brasil: revoluções na prosa e na poesia).

Os três importantes livros de Guimarães Rosa – escritor mineiro nascido em 1908, em Cordisburgo, e falecido em 1967 – formam o tripé básico de sua obra, responsável por uma renovação radical da ficção brasileira, principalmente no nível da linguagem, ou seja, no plano da invenção estética que perpassa suas narrativas. Rosa já foi traduzido para vários idiomas; a bibliografia sobre sua obra é extensíssima.

Segundo o crítico Antônio Cândido, “Sagarana nasceu universal pelo alcance e coesão da fatura. A língua parece finalmente ter atingido o ideal da expressão literária regionalista. Densa, vigorosa, foi talhada no veio da linguagem popular e disciplinada dentro das tradições clássicas. Mário de Andrade, se fosse vivo, leria, comovido, este resultado esplêndido da libertação linguística, para que ele contribuiu com a libertinagem heroica da sua”.

O poeta, ensaísta e tradutor Haroldo de Campos observou, a respeito de certas estórias de “Corpo de Baile” e de “Grande Sertão: Veredas”, que “Guimarães Rosa retoma de Joyce aquilo que há de mais joyciano: sua (como disse Sartre) ‘contestação da linguagem comum’, sua revolução da palavra, e consegue fazer dela um problema novo, autônomo, alimentado em latências e possibilidades peculiares a nossa língua, das quais tira todo um riquíssimo manancial de efeitos”.

Guimarães Rosa – monumental poeta da prosa; mestre-inventor de formas novas de narrativa que extrapolam a mera classificação de “conto” ou “romance”, adentrando assim a categoria mais geral de texto (no sentido que conceitua um Max Bense, por ex.). O melhor é ir direto à escritura rosiana, curtir sua plasticidade linguístico-barroquista – figuras sonoras sempre em movimento no corpo do texto. Abaixo, fragmentos da primeira e da última página de “Grande Sertão”. “Mire e veja”, caro leitor.

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Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser – se viu; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram – era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas… Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente – depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão.

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E me cerro, aqui, mire e veja. Isto não é o de um relatar passagens de sua vida, em toda admiração. Conto o que fui e vi, no levantar do dia. Auroras. Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora estou aqui, quase barranqueiro. Para a velhice vou, com ordem e trabalho. Sei de mim? Cumpro. O Rio de São Francisco – que de tão grande se comparece – parece é um pau grosso, em pé, enorme… Amável o senhor me ouviu, minha ideia confirmou: que o Diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia.

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