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Taquicardias

30/11/2016 06:00:21

"Taquicardias": 23 poetas nos anos 1980 em BH.

Por Carlos Ávila

Uma exposição de livros e poemas-cartazes que fica até o dia 12/12 no Conservatório Mineiro, no centro de BH, comemora os 30 anos de lançamento da antologia “Taquicardias” (Ed. Dubolso) que reuniu 23 poetas nos anos 1980. A mostra integra o evento “O que é um livro? Resistências” da Faculdade de Letras/UFMG. Roberto Carvalho, 61 anos – escritor/jornalista, editor da publicação em 1985 e curador da exposição – conversou com o colunista sobre o livro.

Em “Taquicardias” os textos dos poetas de BH “foram agrupados por parentesco temático ou formal”. O que o levou a essa organização? Não havia o risco de “condicionar” ou dirigir a leitura e o leitor?

Não queria que o livro seguisse o padrão convencional das antologias. A opção certamente direciona, condiciona a leitura, o que não é um mal em si, mas um caminho a ser explorado. Minha sensação era a de que estava compondo um longo poema a partir de diferentes textos. Por outro lado, o Índice de Autores no final do volume dá ao leitor a opção de fazer uma leitura “tradicional”.

Relendo os textos, percebe-se que são curtos, breves, não há poemas longos. A que atribui isso? Tendência de época ou incapacidade de maior “fôlego verbal” por parte de poetas novos e imaturos?

São 96 poemas; para chegar a eles li cerca de mil textos. Os autores me enviaram poemas curtos, longos, curtíssimos, longuíssimos e de média extensão. Talvez influenciado por uma tendência da época, a do poema curto (que alguns chamavam de “poema-relâmpago”), acabei elegendo os mais curtos e impactantes. Um ou outro são um pouco mais extensos.

Segundo sua introdução, não havia a pretensão de mapear o que havia de melhor na poesia jovem naquele momento em BH, nem de “rebater na tecla já um tanto desafinada da mineiridade”. Qual era então o real objetivo da antologia?

O objetivo era apenas: “Vamos publicar?”. Em meados dos anos 80, eu convivia com muitos jovens poetas, talentosos e ainda inéditos. A ideia inicial era trabalhar só com poetas nessa condição. Mais tarde, o projeto se alterou acrescentando autores mais experientes. Todos aceitaram dividir os custos da edição. O Sebastião Nunes, das Edições Dubolso, aceitou publicá-la. No então restrito mercado editorial mineiro, a Dubolso era uma grande janela aberta para a poesia.

Como em todas as publicações coletivas, uma média relativamente pequena de autores continua a produzir e publicar – realizando obra posterior digna de nota. Quem ficou de “Taquicardias”?

O abandono da carreira literária por um autor não tem relação direta com seu talento. Muitos fatores levam à desistência da escrita profissional. O curioso é que, dos 22 poetas vivos de “Taquicardias”, só cinco “desistiram” da poesia. Os demais, em maior ou menor grau, deram continuidade à sua poesia, publicando esparsamente em diferentes mídias impressas e digitais. Alguns devem deixar obra “digna de nota”, mas isso, só o tempo dirá.

Qual é, a seu ver, a importância da antologia?

Se ela tem de fato algum valor, é o de registrar uma variedade do amplo espectro formal e temático da poesia feita no Brasil em meados dos anos 80. Poderá ser útil, no futuro, a quem se dedicar ao estudo da poesia brasileira da segunda metade do séc. 20. Ela também encorajou autores jovens, talentosos e ainda inexperientes, a alçar voos independentes.

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