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Cinema (ainda) novo

07/12/2016 06:00:07
Cinema Novo: cartaz do filme no festival de Cannes.
Cinema Novo: cartaz do filme no festival de Cannes.

Por Carlos Ávila

Era outro país… O Brasil do interregno democrático – entre a ditadura getulista e a ditadura de 64. A arquitetura de Niemeyer e Lucio Costa; o concretismo e o neoconcretismo na poesia e nas artes plásticas; a reforma gráfica do JB por Amilcar de Castro e a afirmação inicial do nosso design com Aloísio Magalhães; Arena e Oficina no teatro; a bossa-nova de Jobim, Vinicius, João Gilberto e… O cinema novo de Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha. Sim, o cinema novo também de Ruy Guerra, Joaquim Pedro de Andrade, Cacá Diegues, Arnaldo Jabor, Leon Hirszman, Saraceni, Walter Lima Jr., Roberto Santos e tantos outros.

O chamado cinema novo foi a nossa Nouvelle Vague – seu precursor, segundo o próprio Glauber, o mineiro Humberto Mauro (diretor, entre outros, do clássico “Ganga bruta”, de 1933); o movimento tinha também influências de Eisenstein e do neorrealismo italiano de Rossellini, De Sica e Visconti. Cinema-verdade. Feito nas ruas com atores e não atores. Por aqui, uma câmera na mão e uma ideia na cabeça (e no coração). Cinema-utopia.

Tudo isso está no surpreendente documentário-invenção “Cinema novo” de Eryk Rocha (sim, “filho de peixe”, filho de Glauber). Trata-se de uma vertiginosa revisita visual aos principais filmes do movimento, mas de forma antilinear e poética – cortes e recortes de cenas, uma verdadeira desconstrução de imagens daquele momento único no audiovisual brasileiro.

Eryk é um legítimo herdeiro da inquietação criativa de Glauber, algo delirante – entre loucura e lucidez extremas. A montagem de seu filme é de tirar o fôlego do espectador, uma espécie de quebra-cabeças (ou caleidoscópio) visual, como há muito não se via em nossas telas.

Entre cenas, por ex., de “Deus e o diabo na terra do sol” e “Vidas secas”; “Os cafajestes” e “Macunaíma”; “Menino de engenho” e “A falecida” nosso olhar viaja por tempos e espaços diversos, tentando unir as linhas soltas de um movimento provocativo e polêmico, diferenciado em si mesmo, no seu ímpeto de procurar conhecer e traduzir em signos visuais um país-continente do então “terceiro mundo”, com suas muitas contradições.

Em meio ao jorro de imagens montadas e remontadas por Eryk há algumas pequenas pistas para o maior entendimento do que foi o cinema novo: fragmentos de depoimentos/entrevistas dos seus realizadores (e há ainda a voz deles em off  num contraponto de som e imagem que solicita atenção do espectador; isso além de áudios e trechos das trilhas originais de alguns dos filmes – e músicas outras, também embutidas).

Veio o golpe militar (1964); depois o AI5, a censura, a luta armada, a repressão, o exílio (1968 em diante). A diáspora do grupo de Nelson e Glauber. “A vitória da ditadura militar foi ter nos separado, e transformado um movimento coletivo numa experiência individual” – relembra hoje um desencantado Cacá Diegues em depoimento no filme.

Mas Eryk ainda vai um pouco além desse período, chega até o marcante (pouco conhecido e estudado) “Iracema – uma transa amazônica”, de Bodansky e Orlando Senna – já em plena época do desenvolvimentismo do governo militar; da  rodovia Transamazônica, da hidrelétrica de Itaipu, da ponte Rio-Niterói e das usinas nucleares de Angra – época também, em se falando de audiovisual, da consolidação da TV Globo como rede nacional. Mais adiante, surgirá outro cinema (ou outros) no país; de início, um cinema dividido entre realizadores independentes (como Bressane e Sganzerla) e embrafílmicos. Mas esta é outra história.

A sequência final dos letreiros originais com os nomes dos diretores citados por Eryk é uma bela e tocante homenagem àqueles que abriram com coragem, nos anos 1950/60, essa picada (já histórica) na ainda incipiente cinematografia brasileira.

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