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Adeus a Gullar

14/12/2016 08:19:45
A Luta Corporal: capa da edição original (1954).
A Luta Corporal: capa da edição original (1954).

Por Carlos Ávila

“A morte/não tem falta de sentido/não tem vontade de morrer/não tem desejos/aflições/o vazio vazio da vida”. Assim, o recém-falecido Ferreira Gullar (1930/2016) – um materialista convicto, ex-marxista – definiu a morte, no seu (salvo engano nosso) último livro de poemas, “Em alguma parte alguma”. A morte de Gullar é a morte da poesia-espanto, do poema sujo de vida (e – por que não? – também de morte).

Um dos dois mais polêmicos poetas de sua geração (o outro é, com certeza, Décio Pignatari), Ferreira Gullar foi do poema verbal ao poema-objeto/ambiente – ou seja, dos “Poemas portugueses” até a desintegração da linguagem, no final do seu livro “A luta corporal” (1954), chegando finalmente aos poemas visuais (“O formigueiro”, por ex.) e objetos.

“Poema enterrado” parece ter sido o ápice da trajetória vanguardista de Gullar – líder teórico do neoconcretismo carioca; trata-se de um ambiente construído para fruição/curtição do leitor/espectador que entraria no poema com todo o corpo, segundo o “esquema do projeto” e o texto que o descreve – registrados na bela caixa-livro “Experiência neoconcreta”, da Cosac Naify (SP, 2007).

Sem dúvida, uma trajetória radical, mas que não se sustentou por muito tempo. Com o golpe de 64, Gullar ingressou no Partidão e retrocedeu para uma poesia “de cordel”, participante, tentando maior comunicação – experiência falha e episódica na sua importante obra, como ele mesmo reconhecia. Mais adiante, voltou à poesia em verso, não metrificada e algo fragmentada, ressemantizada e referencial – com “ecos” de Drummond e Cabral.

Sousândrade (1833/1902) e Gullar são os dois maiores poetas maranhenses. Aliás, pouca gente sabe, Gullar fez a locução do curta-metragem “O Guesa”, do cineasta Sérgio Santeiro (35mm, COR, 19min), rodado em 1969, sobre a vida e a obra de Sousândrade (original e ousado – o poeta foi redescoberto e reeditado pelos Irmãos Campos, ainda nos anos 60).

Mas voltemos à poesia de Gullar. “A luta corporal” (com poemas escritos entre 50 e 53; lançado em edição do autor em 1954) mostra, de saída, a inquietação e a busca de renovação da linguagem poética. É um dos livros marcantes da poesia brasileira, como, por ex., “Lição de coisas” de Drummond; “A educação pela pedra”, de Cabral; ou ainda “Convergência” de Murilo Mendes.

Mais adiante, Gullar passa rapidamente pela poesia concreta (“Mar azul” é um clássico desse período) e pelos poemas-objetos neoconcretos; depois pelos fraquíssimos “romances de cordel”, retornando, finalmente, ao verso livre em “Dentro da noite veloz”.

Segue-se o “Poema sujo” (escrito no exílio, em Buenos Aires, e publicado em 1975) de grande repercussão. Tenso e intenso – uma espécie de suma poético-autobiográfica –, mas longo e desigual (como a neobarroca “Invenção de Orfeu”, de Jorge de Lima), esse poema é considerado o ponto alto da produção de Gullar: “vozes perdidas na lama”. “Poema sujo” ganha muito quando lido pelo próprio poeta (há registros em CD e DVD) – possui uma dimensão oral, a presença do ritmo da fala na escrita.

Contraditório – estética e politicamente –, com seus altos e baixos (o que levou este colunista a nomeá-lo, oswaldianamente, “IrreGullar”, num comentário anterior), o poeta maranhense, também crítico de artes plásticas, criou uma poesia única, suja de lama e de alma – entre as mais significativas da segunda metade do séc. 20 no Brasil.

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