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100 anos de samba

21/12/2016 06:00:11
Téo: "Cartola era um gênio de fato".
Téo no seu estúdio: “Cartola era um gênio de fato”.

Por Carlos Ávila

Para falar sobre os 100 anos do samba, o colunista convidou Téo (Oliveira Santos) – músico/compositor, produtor musical e diretor teatral, 62 anos, carioca que viveu em Minas de 1960 até 70, quando voltou ao Rio. Téo tocou com Cartola, Nelson Cavaquinho, Beth Carvalho, Roberto Ribeiro, Elton Medeiros, João Nogueira e Fátima Guedes, entre outros. No teatro trabalhou com Luis Mendonça, Luis Carlos Niño, Mariozinho Telles etc. Produtor, Téo trabalha atualmente em estúdio próprio na Tijuca (RJ).

O samba está completando 100 anos (tomando como marco a gravação de “Pelo telefone”, de Donga, em 1916). Na sequência, surgiram Ismael Silva, Noel, Assis Valente, Geraldo Pereira e outros nomes importantes que consolidaram o gênero. Qual é a importância, a seu ver, do samba na nossa música popular?

O samba é a alma do povo do Brasil. Entendendo como alma também o suingue, o ritmo, o rebolado e a dança. Cada canto do Brasil tem seu jeito próprio de expressar o samba. Não nos esqueçamos do samba gaúcho de Lupicínio Rodrigues! Então o samba resume, influencia e define a maneira como nossa música se fez e se desenvolve. Toda música brasileira tem, em sua alma, o DNA do samba.

“Quem não gosta de samba bom sujeito não é/É ruim da cabeça ou doente do pé” – Caymmi está certo? O que dizer aos que consideram o samba um gênero musical menor (ou mesmo “pobre”) – isso é puro preconceito?

Quero primeiro lembrar João Gilberto, quando diz categoricamente: “Tudo é samba”! A partir disso e da precisão do seu trabalho irretocável, realmente Caymmi está certíssimo! Além do mais, o que significa ser “gênero menor”? Não conheço nenhum critério que possa justificar esse tipo de coisa. A única coisa que se conhece em música é ritmo. Harmonia é algo absolutamente ainda a ser explorado, então, a rigor, isso de gênero maior e menor não existe, é pura “luta de classes”.

Certa vez você me levou à casa de Cartola (infelizmente, o mestre já estava adoentado; poucas palavras trocamos…). Como você definiria, de maneira breve, Cartola, Nelson Cavaquinho e Zé Kéti – três pilares do samba?

Cartola era um gênio de fato e de verdade – além da generosidade, gentileza e sabedoria que formavam sua grandeza humana. Nelson era outro gênio com suas peculiaridades. Era engraçadíssimo, muito religioso e amigo. Além de melodista inconfundível, era um estilista na forma de cantar, tocar cavaquinho e, principalmente, violão. Zé Kéti, outro gênio, tem também histórias muito engraçadas. Como ele diz: “Eu sou o samba/a voz do morro sou eu mesmo, sim senhor”.

Você acompanhou e conviveu com Elton Medeiros e diversos outros sambistas. Quem você destacaria pela personalidade e criatividade?

Difícil. Cada um é bem diferente do outro. Cartola, por exemplo, era um mestre respeitado por muitos outros mestres. Elton Medeiros, Paulinho da Viola, o grande Villa Lobos e até Nelson Cavaquinho o consideravam além de um gênio, um professor. Outro gênio, com uma personalidade também muito interessante e engraçada, era Ismael Silva, que conheci pouco. Além de músicas maravilhosas, como “Antonico”, ele fazia questão de dizer que era o criador do nome “Escola de Samba”.

Num dos seus sambas, Paulinho da Viola diz que “há muito tempo eu escuto esse papo furado dizendo que o samba acabou”. Mas o bom samba continua, com novos talentos. Mesmo assim, existe hoje, como alguns criticam, um desvirtuamento comercial do gênero?

Problemas comerciais de toda ordem sempre existiram no Brasil com todos os gêneros. Com o samba não é diferente. Paulinho está certo, assim como Nelson Sargento com “Agoniza, mas não morre”, um hino. Não vejo desvirtuamento, vejo os mesmos problemas de sempre na comercialização/divulgação, além da criação de modismos, como o pagode, por exemplo, que se confunde um pouco com o samba mais tradicional. Isso gera certa confusão nessas análises e críticas.

Você está gravando no seu estúdio um disco com o sambista Wilson Moreira. Fale sobre este trabalho. Quando sai o CD dele?   

Wilson é um super compositor e um dos últimos da geração da velha guarda. Ele reuniu 18 sambas inéditos para esse CD. Wilson teve um problema de saúde sério, o que dificulta as coisas, mas ele é um cara incrível e superou tudo isso. Esses sambas vão desde a década de 50 até hoje. Gravei o esqueleto do trabalho. A forma dos arranjos com um ritmo e cavaquinho. O dinheiro acabou, o trabalho parou aí. Com essa confusão no país estou muito desanimado. Não temos como continuar…

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