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Mutações da literatura

28/12/2016 06:00:04
Leyla: escrita clara e lucidez crítica.
Leyla: escrita clara e lucidez crítica.

Por Carlos Ávila

A ensaísta Leyla Perrone-Moisés – também professora emérita da USP, que deu aulas na Universidade de Montreal, na Sorbonne e na Yale University – é, sem sombra de dúvida, uma das mais lúcidas vozes da crítica brasileira. Seu último livro, “Mutações da literatura no século XXI”, lançado este ano pela Companhia das Letras, atesta isso.

Com já longa militância como crítica literária – em jornal, revista e livro –, iniciada ainda nos anos 1960, Leyla enfrenta no seu mais recente volume o desafio de estudar e analisar a produção contemporânea no campo da ficção, no país e no exterior (a poesia foi objeto de um livro anterior: “Inútil poesia”). Segundo ela afirma na apresentação, seus ensaios dão continuidade ao último capítulo (“A modernidade em ruínas”), de seu livro “Altas literaturas”, lançado em 98.

Mas antes de entrar na análise de livros publicados “na virada” e no início deste século, Leyla esmiúça e critica o “fim da literatura” (no rastro de outros “fins”, como da história e da utopia); o lugar – ou não lugar – da literatura na cultura atual; a existência ou não de uma literatura pós-moderna; a herança literária; a crítica e o ensino da literatura.

Leyla mergulha fundo em questionamentos e hipóteses – mas com linguagem clara e objetiva, sem embananamentos teóricos e terminológicos –, sempre apoiada em grandes ensaístas e pensadores como Derrida, Sartre, Blanchot, Octavio Paz, Barthes, George Steiner, Umberto Eco, Susan Sontag, Haroldo de Campos e outros do mesmo calibre.

“Considerando que o conceito de literatura ainda vigente é uma criação da cultura ocidental” – diz Leyla – “concentro-me aqui na literatura das modernas línguas ocidentais”. A ensaísta leva em conta também a superação “do conceito de literatura como conceito de nação”, após a globalização. Trata-se de uma bem-vinda visão pós-nacionalista: “os autores analisados foram escolhidos por sua representatividade internacional, atestada pela tradução de suas obras em numerosos idiomas e pelo consenso de críticos atuantes em vários países”.

Leyla discute o pós-moderno e o multiculturalismo, com extrema lucidez, e ao falar da literatura como herança observa que “o patrimônio monumental é imóvel. A literatura, pelo contrário, é incessantemente disseminada e inseminadora, infinitamente reinterpretada. Por isso, não há razão para se fazer o luto da literatura. A melhor reinterpretação da literatura é aquela fornecida pelas novas obras que a prosseguem”.

É assim que na segunda parte de seu livro (de quase 300 págs.), Leyla “percorre” analiticamente, com antenas ligadas e olhar perspicaz, algumas narrativas contemporâneas – obras de estilos e formas diferenciados. Vila-Matas, Le Clézio, Saramago, Tabucchi, Coetzee, Colm Tóibín, Bolaño, Tom Wolfe, Kundera, Ian McEwan, Alan Pauls, Vargas Llosa, Pamuk e muitos outros são abordados (e até autores relativamente jovens, inclusive vários brasileiros).

Leyla é ousada nesse sentido, fala de livros recentes, no “calor da hora”; arrisca-se em investidas críticas ainda sem distanciamento temporal das obras. Mostra abertura e empenho em analisar não só o “cânone” ou o passado literário já codificado. Tarefa possível apenas para uma estudiosa do seu nível, com sólida formação e sempre up to date – aberta ao novo.

“Mutações da literatura no século XXI” talvez seja o mais importante livro de ensaios lançado no país neste ano que chega ao fim; leitura obrigatória para professores e pesquisadores, também para todos os interessados nos rumos da narrativa contemporânea.

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