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Memórias da titia do rock

11/01/2017 06:00:59
Rita Lee nos anos 60: rebelde e criativa
Rita Lee nos anos 60: rebelde e criativa

Por Carlos Ávila

“Há muito tempo uma mulher sentou-se e leu na bola de cristal/que uma menina loira ia vir de uma cidade industrial/de bicicleta, de bermuda, mutante, bonita/solta, decidida, cheia de vida etc e tal/cantando o yê, yê, yê, yê, yê, yê, yê…” – assim Gilberto Gil definiu numa canção a eterna mutante Rita Lee.

A titia do rock (entrando nos 70!) lançou, há pouco, as suas desvairadas e divertidas memórias – ou desmemorias (“memória já queimada pelos incêndios existenciais que eu mesma ateei”).  Em “Rita Lee – uma autobiografia” (SP, Ed. Globo, 2016) ela vai da infância, numa família diferenciada na Paulicéia, ao tempo do desbunde tropicalista; tempo também de sexo, drogas e rock’n’ roll (incluindo o encontro com o companheiro/parceiro Roberto de Carvalho).  E, like a rolling stone, a roqueira não deixa pedra sobre pedra. Doa a quem doer, ou doa a ela própria… Mas sua escrita é recheada de amor & humor.

Lee é leve (e solta) no texto, que custa um pouco a “engrenar”, iniciando com as historietas familiares no “velho casarão dos anos 1920 na rua Joaquim Távora, 670” – na Vila Madalena, em SP. Ali, o pai, Charles (filho de norte-americanos) comandava um “harém desvairado”: sua mulher Chesa, Balú (“a fada madrinha”) e as filhas Mary, Virgínia, Rita e Carú (filha adotiva italiana).

“Fui uma ginasiana medíocre, sempre passando o ano raspando, sempre me sentando no fundão, sempre conversando muito e sempre sendo expulsa da classe”. À escola, Rita acabou preferindo James Dean (paixão juvenil) e os Beatles – seus dois grandes ídolos. Dos “teatrinhos em casa”, com as irmãs, e dos “bailinhos nos porões”, pulou logo para o grupo de rock O’Seis, ao lado dos brothers Dias Baptista (Arnaldo e Sérgio – dois craques do rock nacional com os quais formaria, mais adiante, a inesquecível banda Mutantes, fundamental no movimento tropicalista, que reuniu Caetano, Gil, Gal, Torquato Neto, Tom Zé e Duprat: uma turma da pesada).

“Os bons tempos chatos da ditadura”, segundo Rita; para ela, militares e comunistas se equivaliam na chatice: “Sexo, Drogas & Rock’n’ roll não combinava com Tradição, Família & Propriedade, ou você era esquerdette ou direitette. Para acomodar quem me cobrava uma posição política, me assumi hiponga comunista com um pé no imperialismo”.

Ainda antes do tropicalismo, o cantor Ronnie Von levou Rita, Sérgio e Arnaldo para o seu programa de TV; foi ele quem batizou o grupo e anunciava: “Eles vieram de outro planeta e estão entre nós para tocar ‘A marcha turca de Mozart’. Com vocês, Os Mutantes”. O resto da história todo mundo sabe: “Domingo no parque” com Gil, no famoso Festival da Record; acompanhamento e participação nos LPs dos baianos; e vários discos do grupo (os três primeiros são os melhores: obras-primas do rock no mesmo nível criativo de Beatles, Byrds, The Mamas and The Papas, Jefferson Airplane, Stones etc.).

O livro de Rita é um belo depoimento sobre a juventude de uma época, seu comportamento e criatividade. Relata as “aprontações”, mas não deixa de narrar também as internações; as “pirações” dela e de Arnaldo Baptista, principalmente. As brigas e rompimentos. Os ácidos e a acidez do período. Até o encontro amoroso-musical com o guitarrista Roberto de Carvalho, que “deu um calço” à vida e à música de Rita (“a gente faz amor por telepatia/no chão, no mar, na lua, na melodia…”). Vêm a carreira solo e os filhos… Ressalte-se a infinita paciência e carinho de Roberto com Rita – segurando a barra diante de tantos altos e baixos da roqueira (muita droga e muito álcool; desregramento de todos os sentidos, a la Rimbaud, resultando até em prisão!).

Rita se assume e é sincera: “numa autobiografia que se preze, contar o côtè podrêra de próprio punho é coisa de quem, como eu, não se importa de perder o que resta de sua pouca reputação. Se eu quisesse babação de ovo, bastava contratar um ghost-writer para escrever uma “autorizada”.

Rita Lee (“roqueira macra com voz micra”): a mais completa tradução de uma geração.

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