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Poesia com coisas

18/01/2017 06:00:02
Eucanaã Ferraz: descobrindo poesia nas coisas.
Eucanaã Ferraz: descobrindo poesia nas coisas.

Por Carlos Ávila

Poesia com coisas: alfinete, bicicleta, cadeira, dado, espelho, fósforos, guarda-chuva, janela, lápis, martelo, navio, óculos, parafuso, relógio, sapato, tesoura, vassoura, xícara, zíper etc. etc. Isso é o que nos apresenta o poeta Eucanaã Ferraz no seu delicioso e divertido livro infantojuvenil “Cada coisa” (SP, Companhia das Letrinhas, 2016).

A poesia para crianças e jovens não é fácil, ao contrário do que muitos pensam; exige perícia verbal e criatividade – o autor tem que conquistar o leitor, atraí-lo espontaneamente com versos comunicativos, mas também inteligentes, que não caiam no lugar comum, na mesmice. Ou seja, há que se buscar uma “graça” especial, única.

Na poesia brasileira temos dois clássicos nesse segmento editorial: “Ou isto ou aquilo” de Cecília Meireles, lançado em 1964 (livro que encantou este colunista e o despertou para a poesia, ainda garoto) e “A arca de Noé” de Vinicius de Moraes. Ora, tanto Cecília quanto Vinicius – poetas importantes no séc. 20, no Brasil, com obras significativas – eram exímios artesãos da palavra (dominavam, como poucos, a técnica poética: métrica, rima, ritmo etc.). A poesia infantojuvenil de ambos é cantabile, ou seja, musical. Como todos sabem, crianças e jovens são atraídos, naturalmente, pela sonoridade das palavras (estão aí as lyrics de nossa melhor música popular que confirmam isso).

“Cada coisa” de Eucanaã parece seguir essa tradição viva de nossa poesia, vinda de Cecília e Vinicius. Seu livro tem, sim, aquela “graça” especial, já mencionada. Um toque de diferença e inventividade (para isso colaboram também as belas ilustrações realizadas pelo poeta, em parceria com Raul Loureiro): “Gosto de coisar nas coisas./Desde garoto coisava comigo/essa coisa curiosa:/as coisas fazem cócegas nos nossos olhos!”.

O livro de Eucanaã guarda parentesco com outro, anterior a ele: “As coisas”, de Arnaldo Antunes – poeta que também gosta de brincar com as palavras (e as coisas). Segundo este, “as coisas têm peso, massa, volume, tamanho, tempo, forma, cor…” e muito mais; vale dizer: a poesia está em tudo e em toda parte.

É o que se percebe saboreando os jogos verbais de Eucanaã. Trata-se de uma poesia engenhosa e engraçada, a um só tempo (mais inventiva que a sua produção “adulta”). Tudo serve a ela, todas as coisas; o poeta descobre graça num ovo – “é uma coisa branca/sem porta nem tranca” – ou ainda num prego: “Prezo muito o prego!/Prego muitos pregos! (Cuidado com o dedo!)”.

Em “Cada coisa” encontramos poemas curtíssimos, de extensão média e até mesmo longos, de fôlego, como “Cotonete” (poetização inusitada de um objeto corriqueiro, através de variações semântico-formais) e “Mil coisas” (que lembra alguns poemas lúdicos de Murilo Mendes no seu “Convergência”: “a sutileza da coisa/ a firmeza da coisa/a limpeza da coisa/a lindeza da coisa…”).

Seguindo a trilha aberta por Cecília & Vinicius, esse bem-vindo livro de Eucanaã (um destaque, com certeza, em meio à sua produção poética) vem juntar-se a outros, de seus pares contemporâneos – poesia infantojuvenil, realmente, de qualidade: “Histórias com poesia, alguns bichos & cia.”, de Duda Machado; “Pequeno tratado de brinquedos”, de Wilson Bueno; “Num zoológico de letras”, de Régis Bonvicino; “A galinha e outros bichos inteligentes”, de Ronald Polito; “ABC Futebol Clube”, de Mário Alex Rosa; “Bichos tipográficos”, de Guilherme Mansur etc. Enfim, a nossa poesia infantojuvenil vai bem, obrigado (abaixo, um pequeno poema do livro de Eucanaã Ferraz).

Espelho

Não podemos ver o espelho.
Se vamos vê-lo – nos vemos!

E se nos vemos no espelho
Já não somos nós – é imagem!

O espelho é sempre um deserto.
Nós somos a sua miragem.  

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