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O laboratório do escritor

25/01/2017 06:00:54
Piglia: reflexão crítica sobre o seu ofício.
Piglia: reflexão crítica sobre o seu ofício.

Por Carlos Ávila

A recente morte do escritor argentino Ricardo Piglia (1941/2017) me levou a rever o seu fundamental “O laboratório do escritor” (lançado no Brasil em 1994, em tradução da competente Josely Vianna Baptista, que tantos serviços vem prestando à nossa literatura, traduzindo importantes autores latino-americanos – além de Piglia, também Lezama Lima e Cabrera Infante, entre outros).

A chamada “crítica de oficina” muitas vezes supera a crítica tout court – a experiência dos próprios criadores, daqueles que “põem a mão na massa” (na prática literária), é insubstituível. Em poesia, no Brasil, lembre-se, por ex., de Mário Faustino (seguindo a trilha de Pound e Eliot). Faustino, aliás, dizia preferir escrever num laboratório a escrever num templo.

Ora, Piglia era um desses escritores voltados também para a reflexão sobre o seu ofício, não só para a invenção narrativa; publicou diversos romances e volumes de contos – mas nunca deixou de lado a crítica (que, diga-se de passagem, incomoda muita gente; todos querem mesmo é saber de resenhinhas, aplausos, afagos, prêmios e grande vendagem, Flips etc.). “O laboratório” de Piglia precisa ser lido & relido – e meditado; seguem abaixo algumas ideias do escritor argentino (marcadas por mim no volume que li e conservo – para consulta periódica – na minha biblioteca).

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O mais importante nunca se conta. A história secreta se constrói com o não dito, com o subentendido e a alusão.

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Os romances nasceram para ser lidos em tradução. O Quixote já trata disso. O gênero foi criado para resistir à mudança de língua.

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Os agentes secretos e os poetas escrevem numa língua cifrada.

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Segundo Lévi-Strauss, a escrita está na origem da divisão do trabalho. Não há escrita sem opressão, sem desigualdade social, não há escrita sem estado. Mas a escrita também é vista como a origem do espírito de rebeldia.

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Baudelaire foi o primeiro a dizer que é cada vez mais difícil ser artista sem ser crítico. Alguns dos melhores críticos são os que tradicionalmente se chama um artista: é o caso de Pound, de Brecht, de Valéry. O próprio Baudelaire, naturalmente, era um crítico excepcional.

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O leitor ideal é aquele produzido pela própria obra. Uma escrita também produz leitores, é assim que a literatura evolui. Os grandes textos são os que transformam o modo de ler.

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Não existe nenhuma relação entre qualidade literária e consagração crítica ou sucesso de público. A qualidade literária é algo tão raro e difícil de encontrar que nos acostumamos a procurá-la ali onde a crítica e o mercado negam os textos ou os silenciam.

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Se a política é a arte do possível, a arte do ponto final, então a literatura é sua antítese. Nada de pactos, nada de transações, a realidade não é a única verdade.

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