Blogs POLÍTICA

Depois da USP e da Unicamp, a vez de Summerhill

05/12/2014 12:06:15

20141205_cid-gomes_ab01Como se sabe, a nova equipe ministerial é uma promessa de campanha de Dilma: “Novo governo, nova equipe!”. Poucos entenderam a mensagem em toda a sua extensão. Certamente ninguém entre os eleitores da presidente – estes acreditavam que a nova equipe seria um reforço no time, algumas correções necessárias e uma retomada de rumo com mais segurança. Não conheço quem tenha previsto que Dilma pretendia ingressar na escola Kafka de metamorfose.

A inspiração da “nova equipe” é a escola inglesa de Summerhill, famosa nos anos 60. É uma instituição destinada aos níveis básico e secundário, portanto para crianças e adolescentes. Sua característica é a liberdade dos alunos. Mais ou menos na base do “cada um faz o que quer”. Fundador da escola, o educador escocês A.S. Neil publicou em 1960 o livro Liberdade sem medo, no qual reúne os princípios de “abordagem radical” de Summerhill. Mas Neil percebeu que os exageros com que estavam interpretando suas ideias conduziam a situações absurdas; publicou então Liberdade sem Excesso (1967).

Voltando à “nova equipe”. Primeiro, Dilma comporta-se como uma aluna de Summerhill antes do puxão de orelhas do segundo livro do fundador. É um pandemônio. Banqueiros da primeira fila, banqueiros da segunda fila, tecnocratas ortodoxos que nunca pisaram o chão real e sujo comandam a economia. Uma proprietária de terras e estrela ruralista está à frente da agricultura. A impressão que se tem é que a menina Dilma Vana, de Summerhill, resolveu rebelar-se contra seu passado e contra seus eleitores. O mentor parece aplaudir.

Mas o melhor está por vir. Se ninguém imaginava nem Levy nem a Sra. Abreu, não se pode negar que se trata de gente dos seus respectivos ramos. Pode-se discordar deles até os fundamentos mais arraigados das suas crenças, mas não se pode desconhecer que Levy é um economista de longa quilometragem e Kátia Abreu é uma ruralista respeitada no seu campo. Para um governo que nasceu da expectativa de um país repensado, dedicado à inclusão social e à mudança dos parâmetros sociais do desenvolvimento, Levy e Kátia seriam anátemas. Mas, se Dilma acha que deve atender ao mercado e à base aliada a qualquer custo, seus eleitores se frustram mas os beneficiários podem comemorar.

Agora desponta no horizonte um novo tipo de ministro. É a escalação mais extraordinária da menina de Summerhill – para um ministério fundamental, decisivo, não um ministério do tipo Turismo ou Pesca, que existem é para encaixar aliados mesmo, mas simplesmente para o ministério da Educação, vem aí o irmão de Ciro Gomes, ex-governador do Ceará, Cid Gomes.

Durante o governo Lula, a Educação nunca foi objeto de barganha. Estiveram na chefia do ministério Cristovam Buarque, Tarso Genro e Fernando Haddad. Nenhum deles teve força nem tempo para fazer a revolução educacional que esperam para o país – variáveis que compete ao presidente garantir –, mas as simples presenças destes homens à frente da pasta demonstravam a relevância da Educação dentro do governo e, no mínimo, eram muros de contenção contra respingos do mar de lama.

Os três eram figuras de primeira linha do próprio PT, alguns dos políticos mais bem preparados e respeitados do partido. Agora, Dilma inclui o ministério da Educação na lista das vagas de estacionamento oferecidas à base aliada. Nunca se ouviu dizer que Cid Gomes tivesse qualquer afinidade com as questões da Educação, exceto por ter exercido o cargo de governador – o que, se o raciocínio for este, faz dele um verdadeiro homem do Renascimento, um Leonardo da Vinci que domina desde questões de gerência de pessoal até de pesca de lagosta.

Dilma Vana de Summerhill é uma presidente rebelde. Ao obedecer cegamente aos desordeiros que ameaçaram o governo, ela entrega ao país um o ministério da pirraça.

Comentários