Blogs POLÍTICA

A maioria democrata

08/12/2014 19:37:44

01Está demonstrado, em pesquisa de opinião idônea e razoavelmente confiável, que o povo brasileiro é na sua maioria democrata e não quer de volta qualquer tipo de ditadura. Levantamento do instituto DataFolha, publicado hoje na Folha de S.Paulo, ouviu quase 3 mil pessoas em 173 municípios.

Os principais números da pesquisa dão conta de uma clara preferência entre os brasileiros: em média, 66% acham que democracia é sempre melhor que qualquer outro regime de governo. Apenas 15% dizem que tanto faz.

Em segmentos destacados por escolaridade, essa opinião aparece em números muito diferentes um do outro. Daqueles entrevistados que só concluíram o ensino fundamental, 57% preferem a democracia, enquanto 19% dizem que são indiferentes. Na faixa dos que têm curso superior, 80% dizem ser a favor da democracia e 7% preferem ditadura.

Aí é que está o problema. Democracia não é uma escolha clara, definida por interesses objetivos. Em algum momento, pode ser objeto de uma escolha difícil, bastante confusa em cenário de conflitos e verdades proclamadas por todos os lados. Democracia é cultura.

Em 1936, vigorava na Espanha a Segunda República, instalada cinco anos antes, depois de séculos de monarquia, Inquisição e influência sufocante da Igreja, décadas de lutas sangrentas na primeira experiência republicana, mais monarquia, divisões regionais, ditadura militar, restauração monárquica, riqueza nascente nas grandes cidades e miséria no campo – um coquetel autoritário-obscurantista que marca fundo qualquer cultura. Em 1936, alguns generais se rebelaram contra a República e subiram derrubando tudo até Madri, onde instalaram outra ditadura – e toma mais 36 anos de franquismo.

Mas, apesar dos costumes políticos, até a Espanha pode curar-se. Quando Franco morreu e a monarquia foi mais uma vez restaurada, conforme sua vontade, já não era mais aceitável aquela interminável espiral de medievalismo rabugento. O Pacto de Moncloa registrou o nascimento de um país novo e estavelmente democrático. A Europa abraçou a Espanha.

Por aqui, nas margens plácidas do Ipiranga, a história não é muito mais democrática que a da Espanha. Um punhadinho de generais subindo nos seus cavalos ou nos seus jipes e tomando decisões pelo resto do país é coisa comum. A própria República foi uma quartelada que derrubou o imperador e o trocou por uma sequência de líderes militares e barões do café. Apesar da retórica, nada parecido com conquista libertária.

Na marcha da República, desacordos entre oligarquias e estados levaram logo a uma nova República, que imediatamente falsificou documentos e encomendou uma Constituição fascista para virar Estado Novo – uma ditadura declarada e fascinada com Hitler e Mussolini.

O general Garrastazu Medici, o presidente de plantão no período mais repressivo da ditadura seguinte, aquela implantada em 1964, era ao seu tempo muito popular. Aparecia em fotografias ouvindo futebol no radinho portátil, dava palpites na seleção e promovia um crescimento econômico espetaculoso, cheio de obras grandiosas enquanto aumentavam os fossos das disparidades sociais. Principalmente na classe média, o general tinha um apoio decidido e pessoas acreditavam na propaganda maciça do regime. Não acreditavam era naquela conversa de tortura e injustiça social, que atribuíam a “subversivos”.

A redemocratização, em 1985, foi uma conquista de políticos tradicionais como Tancredo Neves, Franco Montoro e Ulysses Guimarães, moderados o bastante para vender aos militares a ideia de que o regime deles esgotara (o que já sabiam) e que eles, os democratas tradicionais, eram confiáveis e não havia o que temer.

E veio a uma democracia perfeitamente adaptada ao gosto dos militares. Como todo regime em que haja alguma liberdade de expressão e algum sinal de poder popular, estava sujeita a desvios do roteiro previsto. Um deles foi a ascensão do PT. Daí os herdeiros da cultura autoritária irem agora para as ruas esboçar um desrespeito ao resultado da última eleição.

Se 66% dos brasileiros (80% dos mais escolarizados) desejam uma democracia durável e estável, é fundamental cuidar da permanência da democracia de hoje, mesmo que não seja perfeita. Ela será boa e durável quanto mais a deixem durar, aperfeiçoar-se e integrar-se à nossa cultura. E quanto mais a educação entre nós for suficiente para que a gente entenda para que serve uma democracia.

Comentários