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“ ‘Política’ era palavra feia no Peru”

10/12/2014 11:50:21

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O escritor peruano Mario Vargas Llosa já foi político. De certo modo, ainda é e sempre será. Em 1962 publicou seu primeiro romance – La ciudad y los perros, que alguém por aqui teve a ideia infeliz de traduzir por Batismo de fogo (mais tarde prevaleceu o bom senso e as edições mais recentes já vêm como A cidade e os cachorros).

Autor de texto elaborado, às vezes inovador, Vargas Llosa escreve basicamente sobre a América Latina e suas vertiginosas discrepâncias sociais, como no romance A guerra do fim do mundo, sobre Canudos. É um romancista da vida real. Foi aluno de colégio militar na juventude; um dos seus melhores livros, Pantaleón e as visitadoras – curtição divertidíssima – é ao mesmo tempo uma construção narrativa surpreendente, lembrando roteiro de Robert Altman, e a crítica mais demolidora da mentalidade militar.

Em 1990, foi candidato a presidente do Peru. Venceu o primeiro turno e perdeu o segundo para Alberto Fujimori, mais tarde afastado do cargo e preso por enriquecimento ilícito, evasão de divisas e genocídio.

Vargas Llosa continua observando o mundo, a cultura e a política. Ele escreveu:

“Quando entrei na Universidade de San Marco, em Lima, em 1953, ‘política’ era palavra feia no Peru. A ditadura do general Odría conseguiu o feito de levar grande número de peruanos a achar que ‘fazer política’ significava dedicar-se a atividade delituosa, associada à violência social e a tráficos ilícitos. [… Mais tarde] a política tornou-se decente durante alguns anos porque as pessoas decentes se animaram a fazer política em vez de fugir dela.

“Hoje, em todas as pesquisas sobre política, uma maioria significativa de cidadãos opina que se trata de atividade medíocre e suja, que repele os mais honestos e capazes e recruta sobretudo nulidades e malandros que a veem como uma maneira rápida de enriquecer. Isso não ocorre só no Terceiro Mundo.

“A que se deve o fato de o mundo inteiro ter chegado a pensar aquilo que todos os ditadores sempre quiseram inculcar nos povos que subjugam, ou seja, que a política é uma atividade vil?

“É verdade que, em muitos lugares, a política é ou se tornou de fato suja e vil. ‘Sempre foi’, dizem pessimistas e cínicos. Não, não é verdade que sempre foi nem que seja agora em todos os lugares e da mesma maneira. Em nossa época, [os] aspectos negativos da vida política foram amplificados, frequentemente de maneira exagerada e irresponsável pelo jornalismo marrom, com o resultado de que a opinião pública chegou à convicção de que política é atividade de pessoas amorais, ineficientes e propensas à corrupção.

“O avanço da tecnologia audiovisual e dos meios de comunicação, que serve para contrapor-se aos sistemas de censura e controle das sociedades autoritárias, deveria ter aperfeiçoado a democracia e incentivado a participação na vida pública. Mas teve efeito contrário, porque em muitos casos a função crítica do jornalismo foi distorcida pela frivolidade e pela avidez de diversão da cultura reinante. […]

“A raiz do fenômeno está na cultura. Ou melhor, na banalização lúdica da cultura imperante, em que o valor supremo agora é divertir-se e divertir, acima de qualquer outra forma de conhecimento ou ideal. […]

“Na civilização do espetáculo os papéis mais infamantes talvez sejam os que os meios de comunicação reservam aos políticos. E esta é outra das razões de no mundo contemporâneo haver tão poucos dirigentes e estadistas exemplares – como um Nelson Mandela ou uma Aung Sam Suu Kyi – que mereçam admiração universal.”

Mario Vargas Llosa, “A civilização do espetáculo – Uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura” – Editora Objetiva, 2013.

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