Blogs POLÍTICA

Propaganda de governo: o escândalo inexplorado

12/12/2014 11:59:35

03A publicidade comercial, atividade fronteiriça situada na divisa entre a legalidade e o crime, acaba de receber verdadeiro presente do Tribunal Regional Federal do Rio Grande do Sul. O egrégio tribunal decidiu restringir ainda mais a propaganda de bebidas alcóolicas, alcançando também comerciais de cervejas e vinhos, até agora livres.

Para citar uma opinião majoritária entre profissionais do setor, propaganda é uma questão de volume de mídia. Segundo essa “tese”, não adianta exibir um comercial bonitinho, engraçado, seja lá o que for, se ele não tiver veiculação maciça. Em outras palavras, dinheiro é que resolve.

Isso significa basicamente que a conversa fiada publicitária sobre “criatividade”, “qualidade de produção”, esses detalhes, é destinada a enganar clientes. O que conta mesmo é o volume da verba de mídia. Mesmo que seja para veicular uma grotesque qualquer. Quando o Tribunal gaúcho reduz ainda mais o alcance de comerciais de bebidas, alegando que influenciam menores, na verdade dá aos publicitários um argumento a favor da sua “eficácia” – o que, segundo eles próprios, é questão de volume de mídia, ou seja, dinheiro.

Esse ponto é essencial para que se discuta propaganda como instrumento político. É espantosa, ofensiva e inexplicável a absurda quantidade de propaganda dos diversos níveis de governo exibida na televisão. Se propaganda fosse um instrumento eficaz como querem fazer crer os empresários do negócio, não seria necessário cutucar o limite da exasperação do telespectador para conseguir influenciá-lo.

Mas, para maior garantia, com o objetivo de alcançar medidas de eficácia cabalísticas e vendidas em linguagem pseudocientífica nas reuniões intermináveis com assessores de comunicação, fica-se com os dois: o suposto poder de persuasão, atestado por pesquisas duvidosas e por ingenuidades como essa sentença gaúcha, e o volume de verba acachapante – que é, afinal, o que interessa a essa assessoria da mentira paga.

O público – ou eleitorado –, quando consegue olhar com um alguma capacidade crítica os cantores sertanejos vendendo o peixe da Prefeitura ou as escolas suecas oferecidas às lindas criancinhas negras de todos os grotões do estado, sempre fica entre o impulso de mudar de canal e a pergunta incômoda que lhe martela a cabeça: “que país é esse, meu Deus?”.

A pergunta se refere a um país que permite que governos anunciem como se competissem num mercado de governos. Como se cada ação do poder público fosse um novo produto lançado pelo governante fulano e pelo partido X. Como se a eleição fosse uma concorrência vencida pela Apple.

Mas a publicidade política (marketing político é puro eufemismo) não serve apenas para vender nulidades, para empurrar – à força de verba farta – para o topo da escala de aprovação popular os governantes mais incapazes. Serve também, em alguns casos serve principalmente, para manipular e pressionar a imprensa e lavar dinheiro.

Não é por acaso que grandes escândalos como o governo Collor de Melo e sua República das Alagoas, os mensalões do PSDB mineiro e o do PT, contaram com a participação decisiva de agências de publicidade – e agências que – é importante lembrar – praticamente não tinham mais negócios no setor privado. Eram máquinas destinadas quase unicamente a irrigar com dinheiro público os jardins dos seus donos milionários.

Essa espécie de exploradores do Estado não chega sequer oferecer a contrapartida de uma tecnologia apurada e cara, como, por exemplo, a construção de pontes, hidrelétricas e refinarias. Isto é o que fazem as empreiteiras, no momento gloriosamente encarapitadas nas manchetes.

A publicidade de governo limita-se à lengalenga frívola e deseducadora dos lugares-comuns, à inutilidade da propaganda sem concorrentes, aos injustificáveis comerciais caríssimos que cobrem de irrealidade Estados miseráveis. A publicidade só é útil ao governante. Com o jogo de prêmios e ameaças que a verba de publicidade permite é que “democratas” como Aécio Neves, por exemplo, impunha à imprensa de Minas Gerais, até dos pequenos jornais do interior, o aplauso ou o silêncio.

Comentários