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O Poder, por Federico Fellini

15/12/2014 11:47:24

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Quando Carlos Lacerda, um dos mentores civis do golpe de 1964, começou a voar em rota de colisão com os militares, percebeu que nunca seria o herdeiro político do regime surgido da deposição de João Goulart. Ao contrário, Lacerda passou a ser cada vez mais o inimigo a abater.

Foi então que ele colou no presidente da República uma frase bem ao seu estilo: “Castelo Branco é muito mais feio por dentro do que por fora”. No dia seguinte, a declaração de Lacerda era manchete em toda a imprensa (a censura ainda não tinha fechado o cerco), e o general acumulava mais uma razão para odiar o governador da Guanabara.

Não sei até onde uma aparência, digamos, felliniana influencia o comportamento de alguém no poder. Vamos convir que, mesmo sob o protesto das pessoas muito corretas, aparências heterodoxas existem. Assim como existe o extremo oposto, o fenômeno da beleza incômoda. Sedução, simetria e graça tão extraordinárias parecem fugir ao controle. Há estudos da área de RH sobre o tema, como o de dois economistas israelenses, que falam em redução de 30% das chances no mercado de trabalho para mulheres bonitas demais.

Em entrevista, a atriz Michelle Pfeiffer contou os problemas que teve com isso e as dificuldades para trabalhar como caixa de supermercado. No mínimo, beleza em excesso provoca ciúmes, dispersa a atenção dos outros e desestabiliza sistemas.Melhor evitar, pensam os mais zelosos.

E pessoas que parecem evadidas de um quadro de Picasso? Humberto de Alencar Castelo Branco (sonoro nome!) poderia ter passado sem o chiste de Lacerda. Este disse horrores de JK e seu governo, até que Juscelino o proibiu de falar no rádio e na TV. Castelo podia fazer o mesmo? Não. A ofensa era muito mais sutil e corria fora do alcance da lei. Qualquer reação pública teria efeitos ainda mais caricaturais. Era irrespondível. Só restava ao general engolir em seco e seguir em frente com seu possível complexo reprimido e seu ódio congelado.

Por outro lado, que rumo teria tido o petrolão, as ações da Petrobras e os editoriais da grande imprensa se a presidente da estatal fosse a engenheira gaúcha, doutorada no MIT e funcionária de carreira da empresa chamada Giselle Bündchen?

A primeira grande dificuldade dessa ficção é que a engenheira tivesse conseguido ser engenheira, vencendo toda a corte do resto do mundo. Mas suponhamos. Se o presidente da República fosse Lula, ou qualquer outro homem, estaria claro para todos que a maior empresa do país estaria entregue a uma namorada do presidente. Se fosse Dilma, ou qualquer outra, daria na mesma – uma executiva belíssima é impensável fora das interpretações de barbearia. Seria necessário que a doutora Giselle demonstrasse com sobras seu domínio do assunto, além de provar uma frieza sobre-humana, para que começassem a leva-la a sério. Teria que processar Paulo Francis dez vezes antes que lhe reconhecessem valor acima do de garota do Alvorada.

No extremo oposto, fiquemos por aqui, na Petrobrás real – a empresa presidida por uma personagem de Federico Fellini. Faz alguma diferença? Não sei, mas imagino que seja um obstáculo quase insuperável para a maioria das pessoas conviver com a ideia de que se tem algo de anedótico. Vale tudo, ou quase tudo, para provar o contrário.

Há alguns poucos anos a Petrobras entrou em parafuso. Suas ações se desvalorizaram e ela atingiu em dezembro seu menor valor de mercado em 10 anos. Sua produção caiu e a credibilidade da empresa foi a zero. Diante da derrocada e dos escândalos, o que faz qualquer presidente? Pede o boné irrevogavelmente. Não no caso da presidente da Petrobras: ela já foi a Dilma duas vezes pedir demissão e a presidente recusou – e ela refluiu.

Parece que o que quer é reforçar seu poder a cada vez que vai ao Planalto. A última coisa que deseja é deixar a presidência da grande estatal. Só uma pessoa muito necessitada de poder é capaz de optar por permanecer naquela mesa. Como a ficcional doutora Giselle, ela deve ter necessidade interior de provar que é um super-homem.

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