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Jair Bolsonaro pode tudo?

17/12/2014 09:14:44
Deputado Barreto Pinto em foto publicada em "O Cruzeiro".
Deputado Barreto Pinto em foto publicada em “O Cruzeiro” – 1946.

No já velhíssimo ano de 1946, funcionava no Rio de Janeiro a Assembleia Constituinte eleita em dezembro do ano anterior, depois da queda da ditadura getulista. Fazia parte dela um deputado inexpressivo, típico baixo-clero (se existisse na época essa designação), chamado Edmundo Barreto Pinto, do PTB-RJ.

Em maio, esse pequeno deputado apareceu numa reportagem da revisa “O Cruzeiro” usando fraque e… cueca. Em poses solenes, mas sempre de cueca samba-canção imaculadamente branca. Três anos depois, processado pela comissão de Ética, Barreto Pinto foi cassado por falta de decoro parlamentar. Foi o primeiro parlamentar a perder o mandato no Brasil por esse honroso motivo.

De lá para cá os costumes mudaram muito, e os níveis de tolerância aumentaram na proporção inversa da diminuição das cuecas. O presidente João Figueiredo, orientado pelo assessor de imprensa Alexandre Garcia, posou para um ensaio destinado a mostrar sua excelente forma física, levantando halteres e andando a cavalo – sempre vestindo uma reduzida sunga preta. Era muito deselegante, mas ninguém cogitou de criticar Figueiredo. Ou porque numa ditadura não é sensato criticar o ditador, ou porque não se dava mais importância a uma sunga publicada, ainda que muito menor que a cueca do Barreto Pinto.

A questão do decoro parlamentar está de novo na ordem do dia. Mas a insensatez da ditadura, aquela que atropela até o simples bom-senso, vazou para tempos democráticos. Depois de quase trinta anos de funcionamento contínuo do regime democrático – apesar de todos os defeitos, é dotado pelo menos de respeito básico pelo ser humano –, o país ainda é obrigado a ouvir disparates como a defesa dos criminosos de Estado, identificados, muitos deles confessos, e nenhum punido.

Essa posição se baseia em argumentos estúpidos – que não se pode chamar de infantis, claro, porque padecem é de senilidade – como o de que houve crimes dos dois lados, dos militares e dos militantes armados. A lei da Anistia, aprovada ainda sob a ditadura, excluiu envolvidos em “crimes de sangue”. Portando, para quem ostensivamente matou não houve anistia.

Sem falar que há uma enorme diferença moral (e também legal) entre a violência de um combatente em confronto com agentes de um regime ilegítimo, e a violência daquele mesmo agente. Sob a proteção do regime, ele produz deliberadamente sofrimento extremo, sequestra, mata, desaparece com cadáveres e oculta os fatos por décadas. O Estado é responsável pela custódia dos presos; matá-los e dar sumiço aos corpos é simplesmente um gesto de crueldade e barbarismo primitivo. O ponto de vista de que estes crimes equivalem aos crimes dos militantes armados é apenas uma ideia tão tosca, tão incivilizada quanto os próprios crimes cometidos pelos agentes do Estado. Ao adotar essa opinião em editorial, um jornal o Estado de S. Paulo vai muito além do conservadorismo e mancha de vez a sua imagem.

Em matéria de defesa de criminosos, no entanto, o país dispõe de um deputado dedicado a essa tarefa há anos – o notório Jair Bolsonaro. Nenhum cuidado, nenhuma sutileza por parte do deputado. Ele faz a apologia do crime – o que também é crime – com toda desfaçatez e certeza de impunidade.

Agora, o notório Bolsonaro atacou a deputada Maria do Rosário, do PT-RS, ex-ministra da secretaria de Direitos Humanos. Disse que não a estuprava porque ela não merecia. Disse esse disparate em entrevista ao jornal Zero Hora, repetindo o que já havia dito na tribuna da Câmara dos Deputados. Sublinhando: falou isso na tribuna da Câmara dos Deputados. Não no café do Salão Verde, nem num botequim da Lapa, nem na sua própria casa. Falou na Câmara. E ainda bravateou dizendo que a Câmara não é convento.

A cueca do deputado Barreto Pinto fica parecendo um lenço de seda. Será que este país decaiu moralmente tanto assim? O que terá de fazer esse Bolsonaro para ser enxotado da Câmara? É possível que o bandido ainda tenha muito combustível para gastar. O país foge dos criminosos de verde-oliva; sua noção de justiça e decoro só é suficiente para criminosos de cueca.

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