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Francisco, o papa que acredita em Deus

19/12/2014 11:36:30

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Peço desculpas aos atentos observadores da palavra estrita, que já devem ter notado no título acima uma chuva no molhado, uma redundância, uma tautologia imperdoável. É que falo de Francisco do ponto de vista de quem acredita no papa como um ser humano respeitável, chefe de uma instituição secular com tremenda influência no Ocidente – mas, ainda assim, nada menos nem mais que um ser humano.

Não acredito que o papa tenha recebido qualquer mandato diretamente de Deus. Não acredito por um motivo muito simples: não acredito que haja um Deus para outorgar mandatos. Esse Deus antropomórfico, que se ofende com miudezas e sente-se honrado porque alguém sobe cem degraus, capaz de nomear um representante no mundo, residente em Roma e amigo de Berlusconi, é mais vinculado à tradição pagã do que à concepção cristã de uma divindade espiritual e complexa.

Tenho dúvidas em relação a esse Deus que se manifestava até pouco tempo atrás com preferências curiosas. Por exemplo, achar – segundo seu representante na época – que o economista austríaco Friedrich Hayek era moralmente superior, digamos, ao francês Charles Bettelheim, e por isso se aliava ao presidente Reagan para derrubar regimes no leste europeu. Isso não seria uma questão talvez um pouco técnica e pequena demais para um Deus, ainda que tratada pelo seu representante?

A grande boa-nova que Francisco introduz nesta Terra tão carente de boas e de novas é a notícia de um Deus para adultos. Parece que afinal estamos chegando à idade, reconhecida pela papa, em que nos tornamos aptos a compreender Deus não mais como grande idealizador de uma multinacional da fé, mas como uma ideia. Uma simples e impalpável ideia de amor ao outro ser humano, de solidariedade, de justiça e de perdão, numa palavra, de bondade.

É com esse tipo de ideia na cabeça que o papa Francisco vem fazendo coisas quase inacreditáveis. Já dizem até que está fazendo milagres; prefiro entender esses eventos extraordinários como o resultado simples e humano da sua crença na vontade e na procura de um mundo melhor – e na sua raríssima capacidade de dar provas de que a ideia de bondade existe e pode prevalecer.

Se para efeitos didáticos – em consideração à criança que somos – se quer dar a essa ideia o nome de Deus, acredito que ela, a ideia, não ficará pior por isso. O único perigo é que, ao chamá-la de God, Dios, Gott ou Deus, comecemos a atribuir-lhe vida independente e, daqui a pouco, estaremos cobrando dele o que é tarefa nossa. Pior ainda, podemos acreditar até que Deus é americano, segundo uns, ou cubano, segundo outros. Muitos desastres humanos começam assim.

Francisco é antes de tudo um descomplicador, um homem que acredita no poder que tem. Não tem quase nenhum, se tomarmos o critério de Stálin, que perguntou desdenhosamente, ao comentar uma observação do presidente da França sobre a importância do papa: “E quantas divisões tem o papa?”.

Nesse sentido, Francisco tem ainda menos poderes que Pio XII, o papa da época. O que ele tem de incontrastável é a confiança nas possibilidades de Deus, ou seja, nas possibilidades de uma ideia generosa de superar todas as outras, custosas e péssimas ideias de retaliação, de dominação, de nacionalismo, enfim esse arsenal de insensatez e sofrimento que empurra a humanidade há milênios.

Francisco foi o artífice da aproximação entre EUA e Cuba. Abrigou no Vaticano as reuniões dos representantes diplomáticos, insistiu na libertação de presos políticos dos dois lados, pressionou Obama e Raúl Castro. Em junho, reunira os presidentes da Autoridade Palestina e de Israel, Shimon Peres e Mahmoud Abbas, para “rezarem juntos pela paz”. Essa reunião no Vaticano se deu oito dias depois de fracassarem as negociações palestino-israelenses patrocinadas pelos EUA.

Podemos ler estas notícias assim: o estadista Francisco negocia a paz. Podemos, mas isso não explica por inteiro o papel do papa. Ele não tem interesses econômicos nem militares, já que não dirige um país de verdade. O que ele faz é representar a ideia do bem. E o faz tão bem, simples e sinceramente, porque acredita nela, não importa o nome que lhe deem.

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