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O presidente aposentado

22/12/2014 11:21:44
Kennedy com o filho, John Jr., no Salão Oval da Casa Branca.
Kennedy com o filho, John Jr., no Salão Oval da Casa Branca.

John Kennedy foi eleito presidente dos EUA aos 43 anos, em 1960. Se tivesse cumprido os dois mandatos que a Constituição lhe permitia, aos 51anos estaria aposentado. Não passaria por qualquer dificuldade, como Harry Truman, pois vinha de família milionária. Além disso, desde 1958 os ex-presidentes americanos recebem pensão vitalícia equivalente ao salário de ministro de Estado (em 2013, duzentos mil dólares anuais), além de verba para assessores, segurança e manutenção de escritório próprio em qualquer lugar do país.

Pela idade com que morreu seu pai – 81 anos –, a expectativa de vida de Kennedy era longa. Embora tivesse saúde muito precária, preocupava-se com o que iria fazer durante todo aquele futuro sem política. Em entrevista, Jackeline contou que o marido se angustiava com a perspectiva do tédio na aposentadoria.

Nos EUA, tendo sido presidente, o cidadão não ocupa mais um cargo público, exceto como embaixador em missões temáticas. Foi o caso de Clinton e Carter. Este, derrotado com números vergonhosos na tentativa de se reeleger, tornou-se um ex-presidente mundialmente respeitado e admirado. Fora isso, podem cuidar da vida sem sustos, até o fim – mas política só como tema de livros e palestras.

Ao contrário, por aqui ninguém larga o osso espontaneamente. Sem considerar os ditadores militares, desde a revolução de 1930 apenas dois ex-presidentes foram para casa depois do mandato: o general Dutra (1945-1951) e João Goulart (1961-1964), que saiu do Planalto para o exílio. Até Collor de Melo, caso isolado de impeachment, reapareceu como senador, com os mesmos esgares de psicopata. Será que tanto apego se deve a que no Brasil ex-presidentes não têm nem um salário mínimo de pensão?

Ou será por conta dos costumes coronelísticos – uma vez chefe, sempre chefe? Semana passada, ao se despedir do Senado, José Sarney fez uma declaração que merece ser regada e adubada. Disse que ex-presidentes deveriam ser impedidos de voltar a cargos públicos, mesmo os eletivos; e ainda falou do arrependimento de ter voltado. No último minuto de uma carreira que parecia interminável, Sarney fez sua primeira afirmação que vale a pena ser ouvida.

José Ribamar – chamado Zé do Sarney (seu pai) – apareceu na política nacional como membro da “bossa-nova da UDN”, grupo de jovens deputados que pretendia sacudir o partido. Foi contra o golpe de 1964, mas, no bipartidarismo imposto em seguida, aderiu ao partido de apoio ao regime, a Arena. Em 1965, foi eleito governador do Maranhão (sua campanha teve até filminho de propaganda dirigido por Glauber Rocha).

Desde então, vem sendo eleito sucessivamente. O Maranhão é um feudo que os Sarney dominam como propriedade privada desde aquele longínquo 1965. Cinquenta anos depois, é um dos dois estados brasileiros com mais baixo índice de IDH e mais alta taxa de mortalidade infantil.

Num acaso desses que provocaria gargalhadas até Ed Wood – “o pior cineasta do mundo” –, Sarney chegou à Presidência em 1985. Ele, o presidente do partido da ditadura, chegava ao poder justamente quando a ditadura caía – porque o candidato eleito, do qual era vice graças a um acordo de circunstância mal representado, adoeceu na véspera da posse.

Sarney fez um governo desastroso, com retumbante fracasso na economia, além do estilo de político municipal dando as cartas no país. O antigo candidato de Glauber Rocha era tão rejeitado que conseguiu ser decisivo na eleição do seu sucessor, cuja única qualidade era ser anti-Sarney. Resultado: foram dois desastres seguidos na Presidência.

Mas José Sarney não descansou. Instalou-se no Senado, ainda que para isso precisasse buscar a candidatura fora do seu Maranhão, porque nem lá conseguiu apoio. Foi presidente do Senado e, como sempre, um serviçal do poder emergente. Sem esquecer jamais do seu próprio poder feudal no Maranhão.

Eis que agora Sarney revela que é contra o retorno dos ex-presidentes aos cargos eletivos. Precisamos anotar isso para uma próxima reforma política. Ex-presidentes hoje em dia resolveram a dúvida que atormentava Kennedy: como Clinton, FHC e Lula, são um sucesso como conferencistas, quando não diplomatas e Nobel da Paz como Carter. Não precisam se repetir “como farsa”.

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