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Ministério-nostalgia?

02/01/2015 12:02:24

 

Túmulo de Marx no cemitério de Highgate, norte de Londres
Túmulo de Marx no cemitério de Highgate, norte de Londres

Com permissão do Cony, digo que Deus é testemunha do meu respeito e admiração pela presidente da República. Filha de um empresário búlgaro, deve ter sofrido na adolescência com piadinhas de colegas do Colégio Estadual por causa do título de um livro de Campos de Carvalho, O púcaro búlgaro (naquele tempo, estudantes liam livros).

Longe de ser uma brasileira comum, Dilma seguiu um caminho muito característico da nossa geração. Nascemos no mesmo ano e moramos por algum tempo na mesma Savassi, em Belo Horizonte, cada um a pouco mais de dois quarteirões da praça. Mas não conheci a Dilminha da Rua Major Lopes. Hoje se sabe onde ela estava quando saiu de circulação, como alguns amigos meus: todos cuidavam da “revolução” e da própria sobrevivência.

Da minha parte, só conheci Dilma quando seu nome forte e raro preencheu o Ministério das Minas e Energia do primeiro governo Lula. Desde o primeiro dia, olhei aquela ministra com a admiração devida a quem se arrisca por ideais que não aqueles de comprar uma guitarra e depois um iate. Mas sabia que, além da nossa repulsa pelo bando de gorilas que infestou o país, tínhamos tido muito pouco em comum e foram diferentes os livros que guardamos.

Mas confiava em que o tempo e as circunstâncias nos haveriam tornado menos diferentes. A primeira vez que lhe teria dito algo como “deixa de bobagem” foi quando, eleita presidente, Dilma resolveu impor aos aliados essa espécie de estrela amarela no braço: empregar a sério o palavrão presidenta, tão irreal quanto garção. Por mais honroso que seja demonstrar em público simpatia pelos caprichos de Dilma, um aliado deveria ser liberado desse mico.

O palavrão não é nada, porém, diante do que acabou acontecendo – o ministeriazzo natalino.  A escolha dos auxiliares para o segundo mandato revela uma Dilma Vana Rousseff insuspeitada. Ou é a projeção sexagenária de uma menina pirracenta que, uma vez no Planalto, brinca de “dona do nariz” como se Brasília fosse Summerhill – ou é a bomba de efeito retardado de crenças marxistas pré-Muro, pré-Gramsci.

Uma das grandes dificuldades do marxismo – evidente em todas as experiências reais a partir da revolução russa – é a imprecisão do desenho do Estado de transição. Do fim do Estado liberal-democrático, ou burguês, até a concretização da sociedade sem classes e portanto sem Estado, vigora a ditadura do proletariado – o domínio completo e sem mais conversa da classe hegemônica. Marx, no Manifesto Comunista, desconsidera possíveis conquistas do “Estado democrático-liberal” e afirma que essa instituição nada mais é que “um comitê para administrar os negócios comuns de toda a classe burguesa”.

Sendo assim, não há o que preservar dele. Sua utilidade seria mesmo só a de cair logo e dar lugar à ditadura do proletariado. Acontece que, como observou Norberto Bobbio, essa fórmula não é mais levada a sério. Como não se leva a sério a crítica pesada de Marx aos direitos do homem e do cidadão, que não passariam de “direitos do burguês, sem qualquer valor universal”.

Na juventude, Dilma frequentou esses textos e se dedicou à prática (práxis) decorrente deles. A luta armada não era um projeto de democratas-liberais, mas de militantes ditos “revolucionários”.  Entre a Dilminha e a presidenta, o mundo – principalmente sua porção socialista – descobriu o que havia de irreal e perverso no messianismo político marxista. Militantes “revolucionários”, sobreviventes da radicalização estéril da Guerra Fria, saíram de lutas armadas por uma utopia para se engajar em lutas por uma humanidade real. Reconheceram o valor de conquistas democrático-liberais – burguesas sim, mas e daí?

Ao cometer o ministeriazzo do Natal, Dilma fez lembrar um comentário a respeito dos prédios públicos de Niemeyer em Brasília. Os projetos eram tão ruins, disfuncionais e caros que, disse um crítico, pareciam a expressão do desprezo de um velho stalinista pelas instituições de um governo democrático.

Quando assinou a maioria das nomeações do novo ministério, a presidenta parecia tomada pela nostalgia da “marxista” que desprezava o “Estado burguês”. Concessões inevitáveis à base? Sem dúvida, mas uma presidente não precisa descer à nomeação de um pastor caça-níquel – exceto no caso de desprezo extremo pelo cargo preenchido.

 

O discurso de posse

A presidente Dilma enfatizou a necessidade da reforma política e do combate à corrupção. Ótimo – mas nada de novo. Em outras ocasiões ela já havia batido nessas teclas, sem consequências. Continuamos na fase do “país que desejamos”. Chamou à atenção a apatia da presidente. Dilma falou com o entusiasmo de quem comparece a um cartório. Talvez pela péssima qualidade do texto, cheio de clichês. Encerrou com uma fanfarronice de botequim como se fosse o anúncio da nova era: “o impossível a gente faz agora, só o milagre fica para depois”. Enquanto isso, o George Hilton, pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, novo ministro dos Esportes, esperava a hora de começar a fazer milagres.

A presidente Dilma enfatizou a necessidade da reforma política e do combate à corrupção. Ótimo – mas nada de novo. Em outras ocasiões ela já havia batido nessas teclas, sem consequências. Continuamos na fase do “país que desejamos”. Chamou à atenção a apatia da presidente. Dilma falou com o entusiasmo de quem comparece a um cartório. Talvez pela péssima qualidade do texto, cheio de clichês. Encerrou com uma fanfarronice de botequim como se fosse o anúncio da nova era: “o impossível a gente faz agora, só o milagre fica para depois”. Enquanto isso, o George Hilton, pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, novo ministro dos Esportes, esperava a hora de começar a fazer milagres.

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