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Cicero, Catilina e os senadores brasileiros

17/08/2016 15:31:15

Por Robson Sávio

Voltemos à Roma antiga. Estamos no ano de 63 a.C. Marcus Tullius Cicero, considerado o maior filósofo romano, tinha o cargo de cônsul, posto mais importante do Senado. Na ocasião, ele descobriu que um de seus colegas, o senador Lucius Sergius Catilina, organizava uma conspiração para assassiná-lo. O mentor do complô era um nobre arruinado por dívidas. Como sempre ocorre nas rodas do poder e da corrupção, Catilina contava com o apoio de outros homens ricos, poderosos e militares que também tinham problemas financeiros e se articulavam num golpe contra a República.

Ao ser informado dos planos de Catilina, Cícero convocou uma reunião do Senado e proferiu uma série de quatro discursos, que ficariam conhecidos como Catilinárias.

As Catilinárias são um exemplo de correção e ética no exercício do poder público, dado que os discursos de Cícero passaram a ser referenciados sempre que um homem público, no caso Catilina, atenta contra o interesse geral de uma Nação.

Nessa história do Senado romano, Cícero conseguiu sufocar a revolta de Catilina, postergando alguns anos a existência da República, que foi arruinada quando Júlio César invadiu a península itálica, em 49 a.C.

Infelizmente, não temos no Brasil um senador, com “S” maiúsculo, da estatura de Cícero. Mas, temos muitos que parecem iguais (ou até piores) que Catilina. Para defenderem seus interesses e de seus mentores (os donos do dinheiro e da casa grande); para salvarem suas peles a qualquer custo (porque estão enlameados na corrupção); para manterem seus discursos hipócritas de moralistas sem moral, os catilinas do senado brasileiro crucificarão uma inocente e, com ela, a república e a democracia.

CÍCERO, SENADOR DA ROMA ANTIGA, DÁ UMA LIÇÃO DE DIGNIDADE PARA OS SENADORES QUE CONDENARÃO DILMA.

A maioria dos senadores brasileiros, crentes que estão acima das leis e do julgamento dos brasileiros e do mundo, estão com os ouvidos fechados a quaisquer argumentos a comprovarem a parcialidade, a vingança, o oportunismo e a perversão de um julgamento sem base constitucional. Talvez, nem se tivéssemos no senado daqui um político da envergadura de Cícero se reverteria esse espetáculo de violência à democracia.

As páginas da história brasileira estão sendo novamente borradas com o que há de pior nessa república: no mesmo dia no qual assistimos a abertura do processo de impeachment no Senado, num espetáculo patético de senadores de ouvidos moucos, assistimos Aécio e outros tucanos e peemedebistas defendendo a democracia e falando em respeito às leis; tivemos a absolvição pelo STF de Russomano e a confirmação, pelo PSC, da permanência de Feliciano (o pastor acusado de tentativa de estupro) na liderança daquele “partido”. Agora, só falta a Câmara Federal salvar o mandato de Cunha, com o apoio explícito de Temer. A podridão e a degradação dos três poderes denunciam a decadência da república e a inexistência de uma democracia real.

Mas, voltemos ao senado. A história dos catilinas daqui será contada agora e sempre. Assim como os heróis são lembrados pelos seus exemplos, os políticos e magistrados pífios também entram como vilões, nos rodapés das páginas da história, para que recordemos que a desfaçatez, a desonra, a mesquinhez e outros vícios são os atributos dos traidores, dos hipócritas e daqueles que não merecem um pingo de respeito e consideração.

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