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PT: bola fora; Lula: bola dentro

03/10/2017 15:30:34

Por Robson Sávio

Na semana que passou dois momentos na cena política nacional merecem destaque. Seus protagonistas: o PT e o ex-presidente Lula.

No meio da semana (passada), o PT divulgou uma nota que, sobre o pretexto de defender a democracia e a independência dos poderes, acabou sendo interpretada como defesa a um dos protagonistas da ruptura de 2016, o senador Aécio Neves, recentemente punido pelo Supremo Tribunal Federal.

Ao invés do partido exigir uma apuração das denúncias que pensam contra Aécio no Conselho de (falta de) ética do Senado (o que acabou fazendo depois de divulgar a nota), ou se manifestar claramente pela isonomia da justiça no tratamento da questão, resolveu relativizar a punição ao senador indefensável.

A nota foi duramente criticada por amplos setores da esquerda e serviu para que os grupos mais conservadores voltassem a questionar as posturas pragmáticas do PT. A partir daí, houve um contra-ataque vigoroso de segmentos que defendem o partido, muitas vezes de forma irracional.

Críticas são construtivas: por que não as aceitar?

Uma parte do PT, definitivamente, não aceita críticas. Eles sempre estão certos; sempre são as vítimas do complô; sempre são os guardiões da boa política; sempre fazem a análise correta da conjuntura e os outros sempre estão errados. São incapazes de reconhecer erros e descaminhos. Ignoram, solenemente, que o partido – que é a agremiação mais democrática entre as demais -, também tem elites com visões de mundo conservadoras e mesquinhas. Que tais elites partidárias, há muito, se afastaram das bases e, às vezes, usam da velha política da chantagem ou da vitimização para sempre se manterem onde estão, inclusive a inviabilizarem renovação no partido. Sempre estão com a razão… Se portam como os donos da verdade!

Agindo dessa forma – e não se abrindo para mudanças estruturais e correções de rumo -, o partido está fadado a se tornar um mero mediador entre interesses da elite e interesses dos trabalhadores; ou seja, continuar construindo pontes frágeis entre dois mundos que não se comunicam. O resultado desse tipo de política é que qualquer mudança sempre será incremental, condenando as gerações presentes a lançarem suas esperanças num futuro inalcançável. Até porque, pactos com disputas altamente assimétricas sempre acabam por favorecer o lado mais forte (no caso, os grupos que sempre dominaram o país).

O golpe foi a confirmação cabal desse tipo de política.

Ademais, nos modelos de democracia capitalista, somente depois de rupturas foram possíveis avanços reais para os trabalhadores. Ou seja, acreditar na institucionalidade (ainda mais no momento atual) para a superação de crises profundas, como a que vivemos, é apostar no mais do mesmo.

O PT, a força política de centro-esquerda mais organizada e com as melhores condições de disputar com os grupos de elite, precisa definir com clareza que projeto de sociedade, na conjuntura atual, pretende disputar. Se continuará apostando em parcerias com segmentos do establishment, ou se está disposto a liderar processos de transformação duradouros e efetivos.

Lula líder: breves notas sobre a pesquisa do Datafolha

No domingo, 01/10, uma pesquisa divulgada pelo Datafolha demonstrou que o ex-presidente consolida seu favoritismo na disputa presidencial, não obstante a guerra travada contra ele pelos prepostos das elites nacionais; leia-se mídia e setores do judiciário.

No jornal impresso – dos que afirmaram que no Brasil houve uma “ditabranda” -, a manchete destaca: os votos em Lula resistem aos “escândalos e condenação”. E, sintomaticamente, a manchete no UOL, do grupo Folha, logo “perdeu” destaque nas chamadas do portal na Internet. Como deve ser dolorido para os Frias, seus papagaios de pirata e seus amigos do conglomerado midiático-empresarial noticiarem esses dados! Parece que os Frias, assim como os Marinhos, insistem em achar que opinião publicada é opinião pública.

Ao que tudo indica, a justiça agirá no tapetão a decidir o processo eleitoral no ano que vem (se acontecerem as eleições; tenho dúvidas!). Ou seja, o processo de centralidade e protagonismo do judiciário (que se iniciou com a politização da justiça, passando à judicialização da política e culminando na partidarização da justiça) muito provavelmente usurpará o poder popular, a demonstrar o desprezo das nossas instituições pelas regras até mesmo da democracia procedimental.

Lula tem feito gestos a demonstrarem que pretende fazer um governo de coalizão, sem promover processos de ruptura. Não obstante, parece que não há mais espaço para uma concertação no Brasil. Desde o golpe, os segmentos de elite demonstram desdém à Constituição. Mais que isso, rasgaram os véus da hipocrisia (que mantinham certa estabilidade institucional), num país que tem 6 bilionários cuja riqueza é maior que 100 milhões de brasileiros e 5% dos mais ricos abocanham 95% de toda a riqueza nacional, conforme revelou a Oxfam, recentemente. As elites nacionais indicam que não estão dispostos a qualquer concessão, mesmo com evidências tão escandalosas.

Falar em democracia no Brasil, principalmente após o golpe, é piada de salão. Como os dados acima denunciam, nunca tivemos de fato no país um governo do povo, apesar dos governos do PT terem atendido muitas expectativas populares. E isso não é pouca coisa…

Historicamente, nossas elites se apropriaram do estado e nele se locupletam às custas do trabalho e da vida da imensa maioria dos brasileiros. A propriedade da terra e a estruturação dos grandes empreendimentos industriais e bancários, por exemplo, se consolidaram no Brasil a partir do saque generalizado ao erário ou de políticas de isenção, refinanciamento e perdão de dívidas dos ricos, além da corrupção, é claro. Ou seja, a concentração patrimonial e de riqueza neste país se deu através da rapinagem do tesouro nacional e da ação inescrupulosas das elites que se apropriaram do estado para protegerem seus negócios privados.

Depois do golpe, essas elites de mentalidade escravocrata, colonial e antinacional não querem permitir governos que possibilitem, sequer, algumas concessões ao andar de baixo.

Ou seja, parece que não há mais espaço, sequer, para as mudanças incrementais que foram sendo construídas a passos de tartaruga, com coalizões entre elites, desde a Constituição Federal de 1988.

A sanha escravagista e autoritária das elites nacionais parece ter, definitivamente, saído do armário. Com o apoio da mídia, a turma da casa-grande capturou parte da classe média para promover a guerra de fake news a criminalizar a política, as esquerdas, Lula e o PT. Não resolveu.

Mas, ao que tudo indica, com a adesão da justiça da casa-grande, conseguirá violentar o processo eleitoral, retirando do povo a decisão dos rumos da Nação.

Os dados da pesquisa do Datafolha apontam: os cidadãos percebem que foram ludibriados pelo enredo do golpe; que o único líder político capaz de acolher demandas populares é Lula e que a justiça brasileira continua serviçal da casa-grande.

É incrível a resiliência eleitoral de Lula que tem, também, sua rejeição diminuída (apesar de erros cometidos pelo PT).

Os próximos capítulos dessa disputa perversa, que levou ao comando do país uma gangue sem pudor e temor, serão decisivos para os rumos da Nação. E, se não há espaço para negociação, o desfecho dessa trama poderá ser doloroso.

Há quem aposte na paz eterna dos túmulos. Até quando?

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