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Explosão & Abrigo

13/04/2016 09:49:38
Coutinho e Polito: novos livros na praça.
Coutinho e Polito: novos livros na praça.

Por Carlos Ávila

Dois lançamentos recentes: “A explosão e o suspiro – ou um corpo que cai” (SP, Ed. Tipografia Musical) – primeiro romance de Mário Alves Coutinho, e “Ao abrigo” (BH, Ed. Scriptum), nono livro de poemas de Ronald Polito. Coutinho é crítico de cinema, ensaísta e tradutor (já entrevistado nesta coluna, quando nos falou sobre Godard – tema de um de seus estudos); Polito também é ensaísta e tradutor, além de poeta (e igualmente já foi assunto da coluna, que abordou suas plaquetes poético-artesanais: Edições Espectro).

Jogo intertextual/metalinguístico

Bem sucedido na crítica e na pesquisa sobre cinema (seu livro “Escrever com a câmera”, sobre Godard, é indispensável para quem se interessa pela obra do grande cineasta francês), Coutinho resolveu correr o risco da criação, com um projeto de romance-ensaio – baseado numa leitura contemporânea das tragédias gregas –, onde o narrado (a trajetória do personagem Eduardo – vivida sob a ditadura militar no Brasil e no exílio – contada à filha Antônia, nos seus últimos dias de vida) vem entremeado a um feixe de citações/apropriações de autores referenciais e digressões metalinguísticas.

A boa ideia-arquitetura do livro (“cinematográfica” – vide o subtítulo hitchcockiano) é ofuscada, de certa forma, pelo excessivo aparato intelectual mobilizado pelo autor; seu texto flui mais (e prende o leitor) quando esses elementos não ficam tão à mostra – como no capítulo que se passa num “aparelho” no Rio: tensão & tesão entre Eduardo e Iolanda.

Paradoxalmente, é justamente a opção de Coutinho por uma forma narrativa algo experimental – e não pelo mero contar linear –, mixando outras vozes (textos) à do personagem/narrador, o que traz a marca da diferença, “transformando a leitura num carrossel de descobertas de intenso fascínio”, como assinalou o poeta Ronaldo Werneck na orelha.

Talvez não fosse necessário o “aviso ao leitor” na abertura do volume: o melhor seria uma breve nota (apenas um “tabuleiro de direção” – como usa Cortázar no seu “Rayuela”) sugerindo as opções de leitura; desnecessária também, a nosso ver, a lista final com a revelação dos autores e livros citados – cabe ao leitor buscar (ou não) essas fontes.

Mas ao fim e ao cabo, Coutinho se sai bem dessa sua primeira investida no campo ficcional; produziu um livro desigual, mas denso – na contramão da mesmice de muita prosa que anda por aí sem preocupação com estrutura e linguagem.

Discurso acidentado

Tradutor/introdutor de poetas de língua catalã e castelhana no país e ensaísta de peso (seu livro “Um coração maior do que o mundo” é básico para o estudo da obra de Gonzaga), Ronald Polito vem desenvolvendo também um trabalho significativo na área da poesia – “uma poética de gestos mínimos”, como assinalou certeiramente a crítica Vera Lins.

No seu último livro, “Ao abrigo”, Polito continua a escrever em meio ao deserto e ao abismo – metáforas de um entorno hostil; mas entrevê, agora, um possível horizonte (nem que seja um “abismo-horizonte”) – não à toa, horizonte é uma palavra-chave, recorrente nos seus poemas (reiterada em torno de quinze vezes).

“Horizontes afora, adentro” – abrigos para o deslocado/desterrado poeta? Seu “Discurso com orações” – acidentado – conduz, alheio a margens ou miragens, à “Oração” final: “se luz no chumbo do núcleo/(um vulto de mundo)/a transparência que arrepanha/figura e fundo”.

Polito investe numa poética rarefeita – “poeira contra qualquer materialização” (quando muitos continuam presos a padrões modernistas/concretistas, ou até mesmo leminskianos).

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