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Revendo Vinicius

15/04/2016 06:00:30
Vinicius e Cabral (Paris, 1964): poéticas diferentes e amizade.
Vinicius e Cabral (Paris, 1964): poéticas diferentes e amizade.

Por Carlos Ávila

Um dos mais importantes poetas brasileiros do séc. 20 – Vinicius de Moraes (1913/1980); obra extensa: poemas, letras para canções, crônicas & críticas, peças, roteiros, algumas traduções/versões etc.

Em 1933 – exatos onze anos após a realização da Semana de Arte Moderna –, com apenas vinte anos, Vinicius estreou na poesia com o livro “O caminho para a distância”; já em 35 lançou “Forma e exegese”, com o qual ganhou o Prêmio Felipe d’Oliveira e “aconteceu” na cena poética da época. Daí em diante, sua poesia toma outro rumo.

A produção de Vinicius pode ser dividida em duas fases distintas – uma primeira, de tom transcendental e místico, à qual pertencem os livros citados acima; a segunda, quase uma “negação” da primeira, segue em nova direção, assinalada justamente por um volume intitulado “Novos poemas”, de 1938. Aí já se encontra o Vinicius que a maioria conhece e identifica, o poeta mais próximo do mundo real e material – do amor (e, consequentemente, da mulher), da morte, dos problemas sociais e do cotidiano. Na transição entre essas duas fases escreveu as marcantes “Cinco elegias” – um alto momento da poesia brasileira.

Vinicius era um exímio artesão da palavra. Versátil, ia do verso livre às formas fixas (o soneto, entre elas), exibindo um domínio completo da arte poética, raro entre nós. Possui poemas longos (por exemplo, “Ariana, a mulher” – um texto de fôlego) e breves (“A pera” – um exercício construtivo e ousado, algo cabralino) – com versos também longos, ou curtos; estes, na sua maioria, metrificados.

A poesia de Vinicius cresceu em várias direções, incluindo, a um só tempo, uma dicção sofisticada, de fruição mais exigente, e um estilo mais funcional e comunicativo – a que estão integradas suas letras para canções. Aliás, sobre seu trabalho na música popular é bom assinalar que Vinicius elevou o nível das lyrics, realizando uma verdadeira depuração do material verbal aplicado ao som – modernizando e atualizando os versos derramados e algo parnasianos que dominavam o panorama da MPB.

Ler Vinicius é sempre se surpreender, adentrar uma espécie de universo solar e marítimo do verso, um mundo da palavra escrita ou cantada com rigor e paixão – crença absoluta na existência de um mundo melhor que inclui o amor no seu centro.

Abaixo, um poema-homenagem de Vinicius a João Cabral de Melo Neto (1920/1999); o poeta carioca assume a persona de seu amigo pernambucano (de poética construtiva, tão diferente da sua), assimilando sua secura e aridez – num lance de artesania e perícia verbal.

Retrato, à sua maneira

Magro entre pedras

Calcárias possível

Pergaminho para

A anotação gráfica

 

O grafito Grave

Nariz poema o

Fêmur fraterno

Radiografável a

 

Olho nu Árido

Como o deserto

E além Tu

Irmão totem aedo

 

Exato e provável

No friso do tempo

Adiante Ave

Camarada diamante!

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