Blog CULTURA

Guru televisual

27/04/2016 06:00:03
Faro: ousado e criativo na TV.
Faro: ousado e criativo na TV.

Por Carlos Ávila

Morreu Fernando Faro, aos 88 anos – e com ele um pedaço da história da televisão no Brasil. Conhecido como “Baixo” no meio televisual/musical, Faro foi um pioneiro que antes de chegar à telinha passou por jornais e rádios – foi também publicitário, produtor de discos e diretor de shows.

Nascido em Aracaju, em 1927, foi criado em Salvador e depois se radicou em São Paulo; largou a faculdade de Direito e foi atrás do seu sonho: fazer TV. Autodidata e criativo, inventou uma linguagem própria com poucos recursos técnicos e muita improvisação – não gostava da coisa “certinha” e careta; ousou na luz, no enquadramento, no som e no silêncio no seu “Ensaio”, na TV Cultura/SP. Incorporou até o erro televisivo – “a contribuição milionária de todos os erros”, diria Oswald.

Faro – que passou pela Excelsior e pela Tupi/SP – fez mais ou menos de tudo em TV: teledramas, teleteatro, telejornais… E programas inclassificáveis e inovadores (de “estrutura” aberta) como “TV de vanguarda” e “Móbile”; até chegar aos musicais (incluindo Festivais da Canção) – sua marca registrada.

Décio Pignatari – o primeiro (e talvez único) poeta que defendeu a televisão no país, escrevendo críticas/crônicas sobre o veículo – considerava Faro “um verdadeiro guru televisual”. No seu livro “Signagem da televisão” ressalta que Faro “produziu, entre outras coisas, o sempre lembrado (por alguns) Móbile, o único programa verdadeiramente de vanguarda da televisão brasileira: ali pintavam filmetes e happenings, juntamente com textos de Borges, Paul Valéry, Joyce, lidos por Dina Sfat, Aracy Balabanian, Juca de Oliveira, Lima Duarte, com a música de Toquinho e com a voz de Marisa Olhos de Gata”.

Faro dirigiu também, por brevíssimo tempo, na Tupi/SP, o programa tropicalista “Divino maravilhoso”. Mas ficou conhecido mesmo (e respeitado) pelo seu “Ensaio” – um musical intimista, “de câmara” e de câmera (metonímica televisual), levando para a telinha papos descontraídos e interpretações improvisadas de todos os grandes da MPB, de Cartola a Caetano; sem preconceitos de gênero e geração, entrevistou cerca de 700 artistas e ficou por 26 anos no ar (iniciado em 69, na Tupi/SP, o programa foi, mais tarde, para a Cultura/SP).

Mas o que era o “Ensaio”? Algo simples (e nada simplório!), econômico e essencial. Faro produzia e apresentava o programa; mas não aparecia, nem se ouvia sua voz fazendo as perguntas: “Eu acho que o entrevistador é um ruído. Mais que isso, é um barulho. Quando ele está lá, o depoimento fica dividido” – disse certa vez.

O artista era o foco, com uma única luz direcionada sobre ele – sentado num banquinho no meio do estúdio escuro. Somente isso, mais alguns músicos acompanhando (som acústico, em geral). As imagens: closes do artista – o rosto e as mãos, basicamente; pouca ou quase nenhuma edição final.

O apresentador/produtor tinha faro fino; com pouco fez muito – em meio à profusão de ruídos e imagens. Fernando Faro & raro: figura marcante na história do nosso audiovisual.

*****

Veja um breve videodepoimento de Fernando Faro (TV Cultura/SP):

Comentários