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Grampo canoa

29/04/2016 09:54:25
Goldsmith: "um processador de texto".
Goldsmith: “um processador de texto”.

Por Carlos Ávila

Em meio a tantas publicações sofisticadas – graças aos recursos gráficos existentes hoje – e a sites, blogs e revistas eletrônicas também sofisticados, voltados para a poesia, encontrar uma pequena revista de apenas 68 páginas, grampeadas ao meio, sem ilustrações e com bons textos, não deixa de ser um alento.

Assim se apresenta a “Grampo canoa”, cujo número dois nos caiu nas mãos. Trata-se de uma revista modesta na forma, mas ousada no conteúdo. Um brevíssimo editorial, na contracapa – em papel cartonado verde –, informa que “Grampo canoa é o nome que se dá a um caderno que tem acabamento com dois ou mais grampos reunindo algumas folhas dobradas. Neste caso, o acabamento é a etapa final do processo em que, depois da impressão, as folhas são ordenadas, dobradas e encaixadas no também dobrado papel de capa. Só então é que se colocam os grampos”.

Com edição e projeto gráfico de Leonardo Gandolfi & Marília Garcia – ambos poetas-tradutores –, a “Grampo canoa” é uma revista semestral, com diversos colaboradores, lançada pela Ed. Luna Parque – esta já editou também plaquetes de poetas como o norte-americano Kenneth Goldsmith (criador/editor do site UbuWeb e professor na Universidade da Pensilvânia) e os brasileiros Francisco Alvim e Lu Menezes.

O material da revista é variado e instigante, há desde poemas strictu sensu até textos sem gênero – além de depoimentos, crônicas e uma resenha. Por fim, uma curiosa lista de verbetes, “em que fica difícil saber se é com ou sem versos, o que não vem ao caso” – segundo os próprios editores.

A poesia publicada não atrai muito – salvo algumas estranhezas aqui e ali, e – graças aos céus! – a busca de novos referenciais; não a mesmice dos “ismos” já catalogados e esgotados (ou dos clichês leminskianos), que ninguém aguenta mais. É preferível essa irregularidade poética – com altos e baixos – do que a repetição do que já foi mais bem realizado.

O material mais atraente da “Grampo canoa” inclui as “instruções” da poeta norte-americana Bernadette Mayer (em tradução de Marília) – que trazem à lembrança as de Yoko Ono, no seu “Grapefruit” – e a redescoberta/republicação de duas crônicas de Murilo Mendes (1901/1975), saídas no extinto jornal carioca “A Manhã”, em 1944.

Murilo escreve sobre a palavra Loplop – encontrada no romance-colagem “La femme 100 Têtes”, do pintor surrealista alemão Max Ernest (1891/1976); segundo Augusto Massi, no texto “Muriloplop”, também na revista, o poeta mineiro transformou a expressão num conceito/adjetivo e a utilizou em diversos textos e livros seus.

Mas o ponto alto da “Grampo canoa” – bela surpresa na nossa cena poética – é mesmo o provocativo manifesto de Kenneth Goldsmith (em tradução de Gandolfi), com seus desaforismos; seguem abaixo alguns deles.

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Eu era um artista; depois me tornei poeta; depois escritor. Agora quando me perguntam, digo que sou um processador de texto.

A internet está destruindo a literatura (e isso é bom).

Samplear e citar não passam de maneiras elegantes de apropriação.

Ninguém mais lê; em vez disso, passamos os olhos, analisamos, anotamos, copiamos, colamos, repassamos linguagem.

Todo texto é sujo, usado e cansado. Toda linguagem que se diz nova é reciclada. Nenhuma palavra é virginal; nenhuma palavra é inocente.

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