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Nem Pelé, nem Picasso

04/07/2014 23:41:16
Pelé praticou o futebol-arte; Picasso, a pintura-invenção – com seus altos (muito mais altos!) e baixos.
Por Carlos Ávila
Manter o melhor nível, o desempenho em alta, em qualquer atividade profissional é um desafio. Sim, um desafio que nem sempre é possível alcançar. Alguma irregularidade – altos e baixos – sempre existirá. Há os grandes momentos, os “picos” na performance de um jogador de futebol (e aí está a Copa, com diversos exemplos) ou na criatividade de um artista; e há também os momentos menores, não necessariamente piores (ou medíocres), mas sem um brilho que chame a atenção.O craque Ademir da Guia (“um dos mais geniais meio-campistas do futebol brasileiro em todos os tempos” – segundo o comentarista Milton Neves) pontificou: “Ninguém pode, em qualquer profissão, manter sempre o nível mais alto que consegue alcançar. Ninguém consegue isso, nem Pelé, nem Picasso, nem os melhores escritores, nem os melhores empregados ou patrões”.O toque perfeito de Ademir, fora do campo, numa de suas entrevistas, acabou virando epígrafe de um pequeno livro de Décio Pignatari – “Comunicação Poética”, uma espécie de manual do pretendente a poeta, com dicas sobre linguagem, ritmo, métrica, rima etc. Mas Pignatari (que foi jogador de várzea e escreveu crônicas de futebol) ressalvava, na orelha, que seu livrinho poderia fornecer os meios de fazer poemas, não de fazer poetas. Mas aí já é outra história.

Se realmente é difícil manter o nível sempre alto, deve-se constatar que certa irregularidade também pode ser interessante. Sem ela, o jogador, o artista ou o pensador não saem do lugar. É dessa mesma irregularidade que podem surgir, de repente, a jogada diferente que leve ao gol, a obra ousada e inovadora, a reflexão incomum e marcante. Quem não arrisca não petisca, diz o velho ditado popular.

Pelé, óbvio, teve seus momentos de meras “peladas”, de partidas convencionais; Picasso, óbvio também, executou repetições maneiristas em meio à “montanha de quadros” que pintou. O importante, nesses dois casos, é que prevaleceu a persistência (o empenho, a busca, a inquietação…) mesmo em meio a alguma irregularidade. Esta é, antes de tudo, uma componente da vida e da obra de ambos (aliás, de todos aqueles que se arriscam a criar uma nova forma ou inaugurar um novo processo no seu campo de atuação).

Pelé praticou o futebol-arte; Picasso, a pintura-invenção – com seus altos (muito mais altos!) e baixos.

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