Blog CULTURA

Lúcia McCartney

12/10/2016 06:00:21
Rubem Fonseca: ficção inovadora e ousada.
Rubem Fonseca: ficção inovadora e ousada.

Por Carlos Ávila

Uma minissérie do GNT traz de volta um dos mais marcantes contos de Rubem Fonseca: “Lúcia McCartney” – antes adaptado para o cinema por David Neves, em 1971. Com estreia marcada para o dia 21 de novembro, os oito episódios foram realizados pela Zola Filmes; o diretor é José Henrique – filho de Rubem, que também assina o roteiro com Gustavo Bragança.

“Lúcia McCartney” deu título a uma reunião de 19 contos de Rubem, lançada em 1969, em plena ditadura militar. Livro inovador e ousado – tanto na estrutura dos textos, como na linguagem –, seu estilo é despojado e direto, associando uma visão cruel do real a lances de ironia e de humor cortante (quase cínico).

Importante ficcionista, Rubem Fonseca, 91 anos, tem uns trinta livros publicados – romances e coletâneas de contos; ganhou vários prêmios, inclusive o “Camões”, em 2003. Em “Lúcia McCartney” Rubem reúne violência (inclusive verbal), sexo e angústia – num brutalismo nunca visto antes em nossa prosa; aborda nos seus textos, sem firulas, variados conflitos humano-urbanos.

A crítica Flora Süssekind, num dos seus ensaios, chamou atenção, particularmente, para um dos contos de Rubem intitulado “O quarto selo (fragmento)” na primeira edição do livro. Trata-se de uma “ficção futurista” sobre uma sociedade controladora, com seus sistemas de vigilância, segurança e extermínio, que lembra algo de “Fahrenheit 451” (livro e filme).

Segundo Flora, Rubem “meio seguindo a dicção de um relatório policial comum, enche seu texto de datas, horários, números e siglas que, pela própria repetição exagerada, tornam-se aos poucos ridículos no decorrer da narrativa. Há pouquíssimas frases que não incluem uma ou mais siglas. A regra é entrecortar todo o tempo as falas com explicações sobre as iniciais, que depois passam a ser usadas sem problemas”.

A ensaísta ressalta também o trabalho de Rubem “ora com o excesso (de siglas, de violência, de dados), ora com a interrupção (os parênteses, as explicações, o humor)” – ou seja, um jogo com a forma/linguagem que rompe a linearidade narrativa de “superfície”, utilizando obstáculos verbais.

Mas esse é apenas um exemplo dos procedimentos de Rubem no seu arrojado (e ainda atual) livro. Além do conto que dá título ao volume (e que será recriado na minissérie televisiva) – o já clássico “Lúcia McCartney”, com sua garota de programa carioca e beatlemaníaca, bem anos 1960, que se apaixona por um cliente mais velho – há muito mais. Por ex.: “Desempenho” que retrata a fúria de uma luta “vale-tudo”, em texto entrecortado por travessões; “O caso de F. A.” com seus ágeis diálogos nelson-rodrigueanos – ambientes e personagens putanescos; o conto-entrevista “Asteriscos”, incluindo fragmentos de roteiro de TV, programa teatral, relatório da censura e trechos de crítica – ou seja, variadas dicções.

E mais: “Ambar Gris”, “Corrente” e “Os inocentes” sinteticamente estruturados numa espécie de verso-prosa; “Correndo atrás de Godfrey” e “J. R. Harder, Executive” escritos num surpreendente portinglês – narrativas num mix linguístico (forma & conteúdo atritados). “Zoom” parece ser o mais radical dos contos deste potente “Lúcia McCartney” de Rubem Fonseca que nos provoca e desafia, exigindo leitura e releitura.

Comentários