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Aforismos de Mozart

01/02/2017 06:00:37
Mozart: refinamento e criatividade musical.
Mozart: refinamento e criatividade musical.

Por Carlos Ávila

São impressionantes a precocidade e a genialidade! Mozart, sim – Wolfgang Amadeus Mozart (1756/1791); “o produto extremo de uma civilização refinada” (segundo o mozartiano Murilo Mendes). Mozart, um dos maiores músicos de todos os tempos, ao lado de Bach e Beethoven (tríade musical incontornável – base para o desenvolvimento da música tonal no ocidente, até as dissonâncias debussynianas e o surgimento do dodecafonismo de Schoenberg – uma nova “arquitetura sonora”).

O prodígio de Salzburg fez as primeiras composições aos cinco anos de idade! No seu brevíssimo tempo de vida (apenas 35 anos!) – ars longa, vita brevis – Mozart deixou mais de 600 peças; “obras-primas em quase todos os gêneros musicais: uma série maravilhosa de sinfonias, suítes, concertos para piano, quartetos, quintetos, trios, o Requiem, sonatas para piano, violino, órgão” – conforme observa Mário de Andrade. “E no meio dessas obras-primas, ainda óperas que são monumentos incomparáveis”, acrescenta o escritor-musicólogo modernista.

Nos 261 anos de nascimento do grande Mozart, mestre-inventor, nada melhor do que ler “Aforismos musicais (extraídos de sua correspondência completa)” (SP, Ed. Tipografia Musical, 2016) – com tradução, introdução e notas de Mário Alves Coutinho. Escritor, tradutor e crítico de cinema (seu estudo sobre Godard, “Escrever com a câmera”, é essencial), Coutinho selecionou trechos da correspondência de Mozart, em ordem cronológica, sobre música (é óbvio!), arte, vida e morte – na forma de aforismos (às vezes, intercalados por colocações de seus correspondentes – especialmente seu pai, Leopold Mozart).

Na segunda seção do livro, Coutinho reuniu outros aforismos, desta vez sobre Mozart; segundo ele, “breves e cintilantes frases que, em poucas palavras, jogam luz intensa sobre esse ser ao mesmo tempo misterioso e cristalino”. Por ex.: “Quando ele tocava, era tão suscetível que, se fosse feito qualquer barulho, ele parava em seguida”. Observação do cantor irlandês Michael O’Kelly (1764/1826), que traz à lembrança a mesma sensibilidade ao ruído de outro compositor, o também austríaco Webern (1883/1945) – um dos “pais” da música moderna.

Para fazer sua seleção e tradução desses aforismos (não há nenhuma carta na integra), Coutinho utilizou edições francesas e inglesas da correspondência de Mozart, principalmente a versão de Geneviève Geffray – “Mozart Correspondance Complète” (baseada na edição da Fundação Mozarteum Internacional, de Salzburg). Para os aforismos sobre o compositor mobilizou ampla bibliografia, citada no final do volume de 147 págs. – autores diversos, de Stendhal a Alejo Carpentier, passando pelo nosso Otto Maria Carpeaux e pelos franceses Pierre Jean Jouve e Philippe Sollers.

O resultado é um livro leve e envolvente – como é, aliás, grande parte da música de Mozart –, com uma breve e esclarecedora introdução de Coutinho (intelectual melômano e mozartiano como Godard, tema de seu estudo anterior; o cineasta utilizou peças do compositor em trilhas sonoras e tem um filme intitulado “Forever Mozart”).

“Os humanos passam” – segundo Sollers, citado por Coutinho –, “a música fica, ao menos quando é Mozart quem a escreve”. Em contraponto à sua genialidade, sua vida foi trágica (altos e baixos, problemas financeiros e de saúde; acabou sepultado numa cova sem identificação). Ainda jovem, em Paris, queixou-se ao pai numa carta: “minha vida algumas vezes parece ser sem rima ou razão”. Mas sua música, com certeza, não!

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