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Com Vittorini na Sardenha

01/07/2015 10:57:05
Vittorini: diário poético-paisagístico.
Vittorini: diário poético-paisagístico.

Por Carlos Ávila

“Eu sei o que é ser feliz na vida – e a dádiva da existência, o gosto da hora que passa e das coisas que estão em torno, ainda que imóveis, a dádiva de amá-las, as coisas, fumando, e uma mulher dentro delas”. Assim se inicia o fluente texto de Elio Vittorini (1908/1966), “Sardenha como uma infância”, belo painel da ilha do mar Mediterrâneo ocidental – região autônoma da Itália meridional, cuja capital é Cagliari.

Um dos mais significativos escritores italianos do século 20, Vittorini tinha apenas 24 anos quando escreveu seu livro sobre a ilha dos sardos (daí a infância, ainda próxima, que desponta aqui e ali em meio às suas palavras). Quase um poema em prosa, com quadros verbais montados em sequência por Vittorini, o volume foi fruto de uma viagem através da Sardenha, realizada no início dos anos 1930 – período do fascismo; mais adiante ele se engajou na resistência italiana, durante a 2ª Guerra (desta experiência resultou seu romance “Homens e não”).

Uma joie de vivre ainda guia os passos do jovem Vittorini em direção às aldeias e cidades, à gente do lugar e ao mar: “Na Sardenha se sente sempre a presença dele mesmo a centenas de quilômetros da costa, resplandecendo no ar por todos os lados”.

Autor e texto circulam pela ilha, se enredam nela; resultado: um novelo (e não novela) sem enredo: “Mas é sobretudo Sardenha: por esta solidão em cada coisa, em cada penhasco que parece fechado em si mesmo, meditando, e em cada árvore ou viandante que se encontra, e por esta luz, e por este cheiro de rebanhos a caminho, bem para lá do horizonte”. Trata-se de uma espécie de diário poético-paisagístico – tradução em palavras de uma viagem/vertigem amorosa.

“Sardenha como uma infância”, traduzido por Maurício Santana Dias, integra a coleção Companheiro de Viagem – lançada pela Ed. Cosac Naify – composta por textos de grandes escritores a respeito de cidades e espaços: Sartre e Joseph Brodsky dão duas visões diferentes de Veneza; Elias Canetti fala sobre Marrakech; o arquiteto Le Corbusier narra “A viagem do Oriente”. São fundamentalmente “escritos”, textos sem gênero; com o propósito de registrar olhares sobre lugares.

Voltando à Sardenha de Vittorini; ali, como no poema de João Cabral, “um galo sozinho não tece uma manhã”: “Disperso na luz do raiar do dia, ouve-se um longo cocoricó. Onde? Talvez do fundo da estiva? No entanto ressoou no ar, que ainda o reverbera; no frio; e de muito longe. E é canto sem alegria, quase triste, como de galo cego. Outro cocoricó responde com a mesma cadência aflita, e mais outro, até que de todo lado despertam poleiros invisíveis”.

insights por toda parte do texto vittoriniano – imagístico, fragmentário/modernista; quando fala sobre a cidade de Sassari, por exemplo: “Levanto os olhos e um enorme navio salta sobre mim: a fachada da catedral, de um barroco bizarro como nunca vi. A princípio se diria que era de madeira, um gigantesco móvel carcomido. Mas logo se vê com quanto peso de pedra ela se ergue”.

Vittorini – viagem profunda sob o sol da Sardenha (“zune o sol de sono dos paludes”); o leitor também viaja por cerca de 100 páginas.

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