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Insuportáveis poetas

08/07/2015 12:39:20

Por Carlos Ávila

Canetti: visão crítica dos poetas.
Canetti: visão crítica dos poetas.

Elias Canetti (1905/1994) – um dos mais importantes escritores europeus do século 20, autor do romance “Auto-de-fé”; dos ensaios “Massa e poder” e “A língua absolvida”; Prêmio Nobel em 1981 – tem alguns breves e provocantes textos sobre os poetas; aforismos/anotações literárias de lucidez e atualidade impressionantes, que valem a pena ser relidos e meditados.

Esses textos de Canetti foram traduzidos e publicados entre nós há alguns anos atrás (“Sobre os escritores” – RJ, Ed. José Olympio, 2009; trad. Kristina Michahelles). Seguem abaixo algumas de suas anotações sobre os poetas – uma visão crítica, na contramão das ideias dominantes e convencionais.

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Qualquer poeta que construiu um nome e zela por ele sabe muito bem que, precisamente por isso, não o é mais, pois administra posições como qualquer outro burguês. Mas ele conheceu aqueles que foram tão intensamente apenas poetas que, por esta mesma razão, não conseguiram fazer precisamente aquilo. Terminam apagados e sufocados e têm a opção entre viver incomodando a todos como pedintes ou viver num asilo de loucos.

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O poeta vive de exageros e se torna conhecido pelos mal-entendidos.

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O tempo durante o qual luta apaixonadamente contra alguma coisa é, para o poeta, o mais importante. No momento em que se rende, deixa novamente de ser poeta.

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Sem a desordem da leitura não existe poeta.

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Os poetas maiores que desapareceram porque seus discípulos tiveram mais êxito. Os poetas que desapareceram porque eles próprios tiveram êxito grande demais. Os poetas que só existem porque se tornaram conhecidos tão tardiamente.

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Aquele que tem um poeta na barriga, se ao menos o pudesse pôr na língua!

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Os poetas são insuportáveis uns com os outros. É preciso vê-los com outras pessoas para saber como são.

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Imolar seus amigos e deixá-los ardendo sozinhos, coisa bem cruel e bem própria de um poeta.

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Um poeta que sempre busca o centro – será um poeta? Ele modera tudo que se aproxima dele para manter-se em seu contexto. Pode realmente uma vida que se isola tanto saber alguma coisa das outras?

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No fundo, não confio em mais ninguém que se considera um poeta. Muito menos naquele que acredita ser poeta apesar de sê-lo.

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